Mais de oito milhões de pessoas ficaram expostas à radiação. Registados milhares de casos de cancro da tiroide.
Objeto de filmes e séries, Chernobyl faz parte da memória global, mas também do imaginário popular, em que a fantasia ocupa espaço privilegiado, com relatos de animais mutantes, plantas medonhas, seres estranhos. Tudo por ação da radioatividade libertada pela explosão e incêndio do reator 4 da antiga central nuclear da ex-URSS, hoje em território ucraniano.
Foi há 40 anos, a 26 de abril de 1986, que ocorreu o maior acidente nuclear da história. Dezenas de pessoas morreram naquele dia e seguintes, mas os efeitos a longo prazo da radioatividade deixaram marcas, com milhares de casos de cancro. A cidade próxima da central, Pripyat, com 50 mil habitantes, foi evacuada e permanece ‘fantasma’, assim como as 187 aldeias e quintas integradas na zona de exclusão. No total, foram retiradas da região cerca de 115 mil pessoas na altura do acidente e 230 mil ao longo dos anos.
A nuvem radioativa estendeu-se por ‘meio Mundo’, com maior intensidade nos territórios hoje pertença da Ucrânia, Rússia e Bielorrússia.
Calcula-se que mais de oito milhões de pessoas tenham sido expostas à radiação.
O acesso a Chernobyl continua condicionado. O perigo radioativo ainda é real em alguns lugares, o que não é de estranhar. Segundo a Organização Mundial da Saúde, as explosões libertaram 400 vezes mais material radioativo do que a bomba atómica de Hiroxima.
A forma como as autoridades soviéticas trataram o caso poderá ter contribuído para o avolumar dos casos de cancro que se seguiram, sobretudo da tiroide. A ex-URSS só admitiu o desastre dois dias após a tragédia, quando a Suécia alertou para níveis de radiação anormais, e o Presidente de então, Mikhail Gorbachev, demorou mais de duas semanas a pronunciar-se. Segundo o Comité Científico sobre os Efeitos da Radiação Atómica da ONU, registaram-se 20 mil casos de cancro da tiroide, entre 1991 e 2015, em pessoas que tinham menos de 18 anos em 1986, que viviam nas zonas mais afetadas.
Das muitas histórias de quem viveu o drama de Chernobyl, vale a pena contar a de Iryna Stetstenko e Serhiy Lobonov, recordada pela BBC. Moravam a poucos quilómetros da central, tinham casamento marcado para aquele sábado. Iryna e Serhiy sentiram, durante a noite, que algo se passou. “Era como se muitos aviões estivessem a passar por cima de nós, tudo vibrava, os vidros das janelas tremiam”, conta ela. “Senti um tremor, mas pensei que era um pequeno sismo e voltei a dormir”, conta ele. De manhã, ela estranhou ver soldados de máscara e o mercado vazio. Ele estranhou ver fumo lá para os lados da central. Mas a rádio nada dizia e as autoridades também não. Casaram, mas não foi a boda que esperavam, o ambiente era triste. Fosse o que fosse que se estava a passar, todos sentiam que a coisa era grave. Acabou a festa, foram dormir. Pelas cinco da manhã o casal foi acordado. Tinham de ir para o comboio rápido, a cidade estava a ser temporariamente evacuada. “Saímos por três dias, acabámos por ir embora para o resto da vida”, conta Iryna.
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