Drones e mísseis russos em rota de voo perto de central. O ano passado, um engenho atingiu o escudo protetor do reator 4.
A guerra na Ucrânia despertou os fantasmas do cemitério nuclear de Chernobyl. Um drone russo, que transportava uma ogiva altamente explosiva, atingiu o escudo protetor do NSC - infraestrutura onde se encontra o material radioativo, construída em 2016 e concebida para evitar fugas de radiação. O efeito do ataque levado a cabo por Moscovo, a 14 de fevereiro de 2025, ficou documentado em imagens divulgadas pelas autoridades de Kiev, onde eram bem visíveis os estragos provocados. “O único país do mundo que ataca locais como este, ocupa centrais nucleares e faz a guerra sem ter em conta as consequências é a Rússia de hoje”, escreveu, na altura, o Presidente ucraniano na rede social X. “A estrutura de proteção [de betão e aço, conhecida como sarcófago], foi construída pela Ucrânia, em conjunto com outros países da Europa e do mundo, em conjunto com os Estados Unidos, em conjunto com todos aqueles que estão empenhados na verdadeira segurança da humanidade”, frisou Volodymyr Zelensk. Moscovo sempre negou a responsabilidade do ataque. Numa primeira avaliação, a Agência Internacional de Energia Atómica garantiu que os níveis de radiação no interior e no exterior permaneciam “normais e estáveis”, mas os receios de um novo acidente nuclear ressuscitaram.
Já esta semana, as forças de Moscovo lançaram repetidamente drones e mísseis numa rota de voo perto da central nuclear desativada, o que deixou as autoridades ucranianas em sobressalto. "Esses lançamentos não podem ser explicados por nenhuma razão militar. É evidente que os voos sobre as instalações nucleares são realizados apenas com o objetivo de intimidação e terror", considerou o procurador-geral Ruslan Kravchenko.
O perigo de uma tragédia idêntica à de 26 de abril de 1986, dia em que explodiu o reator 4 da central nuclear de Chernobyl, tem estado presente desde o início da invasão russa da Ucrânia, a 24 de fevereiro de 2022. Poucos dias após o início da operação militar, o exército de Moscovo tomou de assalto a central nuclear de Zaporizhzhia, a maior da Europa e uma das maiores do mundo. Ao longo destes quatro anos de conflito, têm sido relatados vários incidentes, com várias bombas a deflagrarem perto da infraestrutura, composta por seis reatores. A Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) tem alertado para o risco de um acidente nuclear sem precedentes. Localizada no sudeste da Ucrânia, nas margens do rio Dnipro, Zaporizhzhia é uma das regiões mais massacradas pela guerra, pelo que, tanto Kiev como Moscovo, têm negado a autoria das bombas que caem nas proximidades da central. Pela sua importância, o futuro de Zaporizhzhia é um dos temas que tem estado na agenda das conversações de paz entre a Ucrânia e a Rússia, com ambas as partes a reclamarem a sua gestão.
Ao contrário do que aconteceu após o acidente de Chernobyl, que levou a uma forte rejeição do nuclear por parte da opinião pública, em praticamente todo o mundo, hoje a situação é diferente, embora se mantenham algumas bolsas de resistência, sobretudo pelas garantias de segurança que as centrais oferecem. “Os reatores são muito robustos. Têm paredes de betão com um metro de espessura e revestimento de aço. São, portanto, edifícios muito resistentes, com uma proteção que se espera que seja suficiente para impactos acidentais”, assegurou Jonathan Cobb, antigo responsável da AIEA, citado pela Euronews, quando se assinalaram os 37 anos da tragédia de Chernobyl. Garantiu ainda que, mesmo que uma central nuclear seja atingida, intencionalmente ou por acidente, não ocorrerá uma situação como a de Chernobyl, embora admita que as consequências “podem ser graves”.
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