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MICRONOVELA

Herança de sangue Há heranças que não se escolhem.

Peruanos poderão escolher Presidente de direita nas eleições de domingo

Especialistas apontam insegurança nas ruas do país e casos de corrupção governamental como principais causas da viragem.

10 de abril de 2026 às 09:51

Especialistas ouvidos pela Lusa disseram esta sexta-feira que os peruanos provavelmente optarão por um Presidente de um partido de direita nas eleições gerais de domingo, cansados da insegurança nas ruas do país e dos casos de corrupção governamental.

"Com o aumento da insegurança nas ruas e as incertezas políticas com a destituição do Presidente interino [José Jerí, em fevereiro, substituído por José María Balcázar], os peruanos tenderão a aceitar discursos que promovam uma linha mais dura para a segurança pública", declarou Giuliano Braga, investigador do Centro de Investigação em Ciência Política na Universidade do Minho (CICP-UMINHO), lembrando que a economia peruana está relativamente estável.

Com uma economia relativamente estável, o aumento da criminalidade fez da insegurança a maior preocupação dos peruanos nestas eleições, levando a maioria dos candidatos de direita a oferecer promessas populistas, como a retirada do país do Tribunal Interamericano de Direitos Humanos (TIDH) para implementar a pena de morte e a nomeação de juízes "sem rosto" [secretos].

"Há fatores importantes na dimensão doméstica da política peruana. Ao contrário do que acontece com outros países andinos, como Colômbia e Bolívia, o Peru carece, atualmente, de uma esquerda organizada, moderna e pragmática", declarou o historiador Cristiano Pinheiro de Paula Couto, investigador do Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa (IHC-UNL).

"O que se passa no Peru não é diferente, portanto, do que está a suceder em outros lugares", disse Couto, exemplificando com o Chile, onde o antigo Presidente Gabriel Boric (esquerda) viu-se "emparedado" entre as reformas que prometeu fazer, mas que foram travadas pela falta de poder, por forças conservadoras da sociedade e por uma economia voltada para o atual ultraliberalismo.

O Chile virou à extrema-direita no final do ano passado com a eleição do Presidente José Antonio Katz, "um saudosista de Pinochet", segundo Couto.

O último Presidente de esquerda no Peru foi Pedro Castillo (2021-2022), que foi preso e destituído pelo Congresso após a tentativa de golpe falhada que colocou fim ao seu mandato.

Entre os 35 candidatos presidenciais no Peru, as sondagens mostram Keiko Fujimori -- do partido de direita Força Popular e filha do falecido Presidente Alberto Fujimori (1990-2000) - em primeiro lugar com 14% das intenções de votos.

O humorista Carlos Álvarez [do partido de direita País para Todos], uma estrela da televisão peruana há 30 anos, está em segundo com 9% das intenções de votos e o antigo autarca de Lima Rafael López Aliaga [do partido de extrema-direita Renovação Popular] surge em terceiro nas sondagens com cerca de 8% dos votos.

Provavelmente, haverá uma segunda volta das eleições presidenciais, que deverá ocorrer em 07 de junho, uma vez que todos os candidatos estão longe de alcançar a maioria necessária [mais de metade] dos votos na primeira volta.

Braga ao analisar os programas de dois dos preferidos pelo eleitorado peruano -- Fujimori e López Aliaga -, segundo as sondagens, verificou que as promessas eleitorais giram sempre em torno do aumento da segurança, da ordem, do combate à corrupção e da diminuição da pobreza.

"Colocar o combate à corrupção no programa eleitoral no momento em que o país atravessa uma instabilidade no governo causada justamente pela conduta controversa dos incumbentes é uma estratégia eleitoral que dialoga com o eleitor que está sensível a essa questão e pode sim gerar capital político ao candidato em questão", referiu Braga, lembrando que o país teve oito Presidentes em 10 anos, alguns destes condenados à prisão.

Na economia, segundo Couto, "não haverá grandes repercussões, pois o liberalismo econômico eclipsou o liberalismo político há bastante tempo, algo que está na raiz da crise da democracia no mundo ocidental".

"O Peru segue e deverá continuar a seguir a ortodoxia liberal, com uma orientação futura previsível, independentemente de quem vier a vencer, mas felizmente com um prognóstico de bons resultados macroeconômicos", referiu ainda o investigador da IHC-UNL.

Além do Presidente, os peruanos vão eleger no domingo dois Vice-Presidentes, um Congresso bicamaral com 60 senadores e 130 deputados, além de cinco representantes para o Parlamento Andino.

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