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MICRONOVELA

Herança de sangue Há heranças que não se escolhem.

Revista divulga áudios que mostram que ministro demitido por Bolsonaro não mentiu

Carlos Bolsonaro, que não tinha boa relação com o ministro, chamou-o publicamente de mentiroso.

19 de fevereiro de 2019 às 23:06

Áudios divulgados na tarde desta terça-feira pela revista "Veja" mostram que o agora ex-ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Gustavo Bebianno, demitido no final da tarde de segunda-feira pelo presidente Jair Bolsonaro, não mentiu quando na semana passada afirmou ter falado várias vezes com o presidente através de mensagens pelo whatsApp. Carlos Bolsonaro, filho do presidente brasileiro e que não tinha boa relação com o ministro, a quem estava a tentar desacreditar, chamou-o publicamente de mentiroso na altura e afirmou que o pai, então ainda internado após uma cirurgia, já nem falava com Bebianno.

Bolsonaro saiu em defesa do filho e também negou nesse dia ter falado com Bebianno sobre qualquer assunto, também ele chamando mentiroso ao ministro, levando a crise entre ambos para um ponto sem retrocesso, que culminou com a demissão. Mas os áudios agora revelados pela revista provam que realmente o presidente e o seu ministro se falaram várias vezes e sobre diversos assuntos e que, se alguém faltou à verdade, foram o governante e o seu filho.

Num dos áudios, Bebianno, que foi o chefe da campanha que levou Bolsonaro à presidência, diz que o chefe de Estado está "envenenado" contra ele, que não entende a razão disso, já que ambos têm uma proximidade pessoal e política muito grande e que prefere aguardar um encontro pessoal para esclarecer a situação.

Nas respostas, Bolsonaro mostra-se sempre muito agressivo com Bebianno, e dá-lhe ordem para desmarcar vários compromissos que o ministro já tinha acordado e até noticiado na sua agenda pública, nomeadamente uma viagem ao estado do Pará com outros membros do governo, que o chefe de Estado criticou porque, acrescentou, quando ministros viajam a algum lugar depois o povo pede para o governo fazer alguma obra.

Em outro áudio, Bolsonaro critica Bebianno por este ir receber no palácio presidencial, onde ficava a sala do ministro, um diretor da TV Globo. Bolsonaro, que tem fortes ligações com a TV Record, controlada pela IURD, Igreja Universal do Reino de Deus, diz no áudio que a Globo é uma inimiga, que não admite que Bebianno leve o inimigo para dentro do palácio, e determina que ele cancele a reunião.

Num outro áudio igualmente vazado pela "Veja", Bolsonaro diz, aparentemente em tom de ameaça, que já determinou à Polícia Federal que investigue denúncias de que o PSL, Partido Social Liberal, a que tanto ele quanto o ministro pertencem, financiou candidaturas fictícias para desviar dinheiro público destinado à campanha eleitoral.

No período em que esses desvios supostamente aconteceram, Bebianno era o presidente interino do PSL, mas o ministro, em áudio de resposta, diz estar tranquilo pois, como presidente da sigla, apenas autorizou o envio de verbas de campanha solicitadas pelos dirigentes regionais do partido, a quem cabia escolher os candidatos e pedir os financiamentos.

As conversas reveladas esta terça-feira ampliaram ainda mais a crise política, que o governo imaginou que cessaria com a demissão do ministro, pois provaram que, afinal, Bebianno não mentiu e que continuava a falar com o presidente sobre assuntos do governo, o que aumenta ainda mais as especulações sobre o real motivo da exoneração. Ficou claro nesses áudios que Bolsonaro não demitiu Bebianno por causa das denúncias, até porque estas atingem igualmente o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro António, também do PSL, que foi mantido no cargo.

Terça-feira, ao demitir Gustavo Bebianno, Jair Bolsonaro alegou motivos de "foro íntimo", o que causou bastante estranheza pois tratava-se de uma relação política e institucional entre um presidente e um ministro, não tinha, ou não deveria ter, nada de foro íntimo. No Congresso, a noção é de que o ministro foi demitido por pressão de Carlos Bolsonaro, que, tal como os irmãos Eduardo e Flávio, se ingere frequentemente em assuntos do governo, o que preocupa aliados de Jair Bolsonaro e alimenta a acusação da oposição de que o presidente é influenciado pela família e que mistura assuntos pessoais com assuntos políticos.

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