O meu avô, administrador de quintas do Douro, regressava à estação de São Bento daquelas colinas ardentes e fartas em poeira de xisto, carregado de cabazes (com fruta, vinhos, queijos e regueifas da Régua) e livros de assentos contabilísticos, com a sensação de que recuperara uma parte do seu tempo. Ele aprendera, pelos seus próprios meios, pelos incidentes e pela azáfama do percurso, que o trabalho não é um valor em si mesmo mas um instrumento que se limita a proporcionar-nos o mais inestimável dos bens: o tempo. Os Homem viveram sempre do seu trabalho, que lhes garantiu um módico de independência e a possibilidade de manter um certo luxo fora de moda, como o casarão de velhos granitos de Ponte de Lima, onde se guardavam relíquias da família, como livros de genealogia (uma bibliografia sempre aumentada pelo velho Doutor Homem, meu pai, que apreciava minudências e desonras alheias), um serviço avultado da Companhia das Índias que foi escondido depois da revolução de 1974, um retrato do Senhor Dom Miguel, uma colecção de chapéus que já ninguém usava e, digamos, o espírito do tempo. O “espírito do tempo” é uma coisa própria para seres egoístas que, depois de garantirem certos benefícios, se dedicam a aproveitá-los com discrição e parcimónia. Nem uma nem outra palavra são hoje apreciadas. A minha sobrinha Maria Luísa, a eleitora esquerdista da família que agora anda a reler os romances de Jane Austen, assegura que os seus filhos não imaginam o que seja “parcimónia”.
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