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António Sousa Homem

António Sousa Homem

Um conservador no mundo da velocidade

26 de julho de 2026 às 00:30

Quando o Verão chega recordo-me de outros Verões. A palavra Estio é uma velharia mas não há nada tão romântico como a sua aparição, a meio de uma memória de outros anos antigos. A minha sobrinha Maria Luísa, a eleitora esquerdista da família, acha que esta tentação conservadora me impediu de ser um homem do meu tempo e de cair frequentemente na tentação de imaginar que vivo num período que ela situa aproximadamente há duzentos anos. Para abreviar, a minha sobrinha Maria Luísa acha que um conservador pertence ao jazigo de família – onde, além da Tia Benedita, repousam os restos mortais de avoengos e antepassados que combateram pelo senhor Dom Miguel. A ideia convém-me. Duzentos anos, segundo diz o meu sobrinho Manuel, que é geólogo numa empresa de engenharia, é o tempo necessário para que a poeira do deserto poise e comece a formar outro deserto exatamente no mesmo sítio, em camadas sobrepostas. Infelizmente não chegarei lá, a esse tempo em que os habitantes de Cerveira e Caminha nascerão já com asas e o comboio da linha do Minho há-de chegar a Moledo cumprindo o horário. Mesmo assim, mantenho “a tentação conservadora” como uma ilusão amável.

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