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Eduardo Cabrita

Eduardo Cabrita

Ministro-adjunto

Atenas ou Berlim?

21 de fevereiro de 2015 às 00:30

A tragédia europeia, que parecia começar a viver tempos de bonança com a aposta no investimento por parte da Comissão Juncker e a intervenção reforçada do BCE, apesar das resistências alemãs, entrou em nova fase dramática a propósito da questão grega.

A Europa da CECA e da CEE nasceu para integrar a Alemanha derrotada no espaço económico comum das democracias ocidentais. Evitaram-se as humilhações imprudentes que se seguiram à Guerra de 1914-18, e que abriram caminho ao ressentimento germânico e à gestação do caldo de cultura que levou ao nazismo, e houve décadas de solidariedade e perdão com o povo alemão que estão ma génese do projeto europeu de desenvolvimento e equidade social em democracia e sobretudo em paz.

Nos anos 70 do século passado a Europa foi uma outra forma de dizer democracia e solidariedade quando foram varridas as ditaduras conservadoras da Espanha, Portugal e Grécia. A reunificação alemã foi mais um momento de solidariedade, permitindo a rápida inserção da antiga RDA (país de Angela Merkel) no espaço europeu com todos generosos apoios à reconstrução. O alargamento a leste culminou um processo de esperança na sinergia imbatível entre desenvolvimento e liberdade.

Os últimos anos, e sobretudo o debate assente em preconceitos impondo um pensamento único europeu, abriram um caminho perigoso com danos dificilmente reparáveis que nos leva de volta ao espírito de desconfiança de entre as duas guerras do século passado.

Fomos todos berlinenses no final da guerra, aquando da construção do muro e sobretudo quando foi derrubado. Mas somos atenienses há mais de dois mil anos.

Da nossa pasmaceira periférica de quem não tem guerra em casa desde as lutas liberais não devemos esquecer que os gregos aturaram desde então otomanos, alemães, a guerra civil com a derrota comunista e a ditadura dos coronéis o que molda o espírito único de resistência à adversidade.

Os filhotes ignaros da vulgata liberal e os contabilistas menores, como Passos e Maria Luís, olham para a benevolência a curto prazo dos mandantes mas esquecem que a via fraturante só abre caminho para o ressentimento e a desgraça geral.

Atenienses e berlinenses talvez não seja heroico mas está na hora de voltarmos a ser europeus. 

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