Acordei em sobressalto, com o coração a bater mais depressa do que devia àquela hora da manhã. O despertador, daqueles antigos que fingiam substituir o galo da aldeia, ou não tocou ou foi ignorado pelo sono pesado de quem ficou até tarde a ajudar a minha avó Francisca nos preparativos da véspera. Saltei da cama e fui lavar a cara com a urgência de quem sabe que Deus perdoa, mas o meu pai não. Fugaz, vesti a melhor roupa que tinha no armário. Devia ter uns dez anos e lembro-me como se fosse hoje. Em Valença do Minho, no domingo de Páscoa, não se aparecia de qualquer maneira. Às nove em ponto, o compasso passava pela minha porta e havia que estar pronto e engomado para beijar a cruz. O ritual que tomava lugar era digno de guião de filme sobre a “típica família portuguesa”. O padre, uma das figuras-chave na comunidade, chegava acompanhado de dois ou três vizinhos e alguns moços que o ajudavam com os ornamentos. A minha querida mãe, já aprumada e vestida a rigor, dava-me os últimos retoques no cabelo lambido, para garantir que eu estava pronto para substituir qualquer anjinho se fosse necessário. De repente, o sinal tão esperado: o tilintar que avisava que aí chegava a cruz. Enquanto o meu pai abria a porta e recebia os enviados da igreja com a solenidade de quem cumpria um dever sagrado, a minha avó oferecia-lhes todo o banquete e capricho que a minha casa tinha ao dispor, dos quais eu estava proibido de me servir. Enquanto eu cumpria a minha função de bibelô, ia-se decorrendo a fase da conversa de circunstância, enquanto os garotos da igreja se serviam de uma ou outra iguaria da mesa. Sem mais tempo a perder, o Padre propõe-se a realizar o momento pelo qual tanto esperávamos: o beijo na cruz. Numa grande cerimónia, após os graúdos terem beijado, aproximo-me enquanto baixavam o compasso para eu dar um beijo breve no nosso senhor. Estava cumprido! Até para o ano, então – pensava eu.
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