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Francisco José Viegas

Francisco José Viegas

Escritor

O escritor do Porto

09 de março de 2025 às 00:30

A obra de Camilo, escrevia Ramalho Ortigão num estudo publicado na 9.ª edição de ‘Amor de Perdição’, é “essencialmente provincial, delimitadamente portuense, fundamentalmente lírica”. O texto de Ramalho é um retrato estonteante do Porto dos anos 50 do século XIX – um mundo de pobres, marçanos e caixeiros, serviçais e remediados, todos devotos dos santos locais, todos rezingões e desconfiados; de piqueniques na Quinta da China ou no Freixo, de procissões e de devoções ao Senhor da Pedra, de folhetinistas audazes, sem vergonha, e de rapazes violentos, atrevidos – uma “geração de estouvados” – que quebravam o Teatro de São João, andavam armados de cacetes ou pistolas e morriam de amor, encharcados de conhaque ou de congestão pulmonar. Num retrato vivo e próximo, como portuense familiar, Ramalho relembra que os companheiros próximos da “geração romântica” de Camilo morreram “de enfermidades sintomáticas de degenerescência”: de tísica (como Júlio Dinis, em 1871, ou Soares de Passos em 1860), lesões cardíacas, ‘delirium tremens’, demência ou suicídio. É um mundo reunido em torno da Assembleia Portuense, da Sociedade Filarmónica, da Feitoria Inglesa e do São João (o teatro), mas também dos santos populares e do exibicionismo dos “brasileiros” que tinham regressado ricos, mas que mantinha a sua coloração original, a gravidade: “Em toda a classe comercial não havia um só bigode, e nenhum negociante deste nome se vestia senão de preto, colete de cetim e longa sobrecasaca.”

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