Os triângulos amorosos constituem um foco particular de interesse desde a mais remota antiguidade. Para tal lembremo-nos dos clássicos da mitologia grega, muitas vezes patentes nas tragédias escritas por Eurípides, Ésquilo ou Sófocles. Mais hodiernamente, basta lermos, ou relemos, ‘O Primo Basílio’, do grande Eça de Queiroz, para entendermos que a receita literária do triângulo amoroso ‘prende’ o leitor como nenhuma outra estrutura é capaz de o fazer. Como espécie evolutivamente promíscua, cuja pulsão ‘natural’ tem sido travada pela cultura, designadamente pela ideia de monogamia, o surgimento da ideia de traição ou ‘adultério’ é particularmente eficaz, ainda hoje, mesmo com o surgimento de novos meios de comunicação. Da literatura ao teatro, do cinema à televisão, chegando aos designados reality shows, a fórmula é eficaz: ‘prende-nos’ à nossa essência natural, por vicariância, ou seja, através do que observamos e nos podemos identificar. Nos designados reality shows, apesar de se tratar de um jogo e de constituir um formato de entretenimento bem-sucedido nas últimas três décadas, este tipo de fórmula - triângulo amoroso - ganha, frequentemente, foros de elevada exuberância. Quem está fechado 24 horas por dia, sob a observação de milhões de pessoas, mesmo sendo “bom jogador”, acaba por ceder a pressões que tal situação coloca. Este stresse contínuo, muitas vezes tóxico, leva os participantes a adotarem comportamentos diversos do que habitualmente adotariam, alguns até incompreensíveis, e a algum tipo de desajustamento emocional. No caso do triângulo amoroso constituído pela Eva, pela Ariana e pelo Diogo, que pôs a ‘Casa dos Segredos’ na boca de toda a gente, e, como hoje designamos, se tornou viral, a fórmula tornou a funcionar de maneira exuberante: o público identificou-se com a a traída e demonstrou o ódio ao traidor, de forma raramente vista, excessiva e, até, disfuncional e criminosa (ameaças, destruição de propriedade, etc.). Mas a situação não é inédita. Muitos portugueses recordam a telenovela da TV Globo, de 1984, intitulada ‘Corpo a Corpo’, onde o ator Flávio Galvão interpretou o personagem ‘Diabo’. O ódio que este personagem criou nos espetadores levou a que o referido ator tenha sofrido diversas ameaças e até tentativas de agressão por parte de populares que seguiam a telenovela. Esta perda de distância entre a ficção e a realidade, seguida por um efeito de rebanho relativamente aos processos de identificação com uma das partes envolvidas, hoje muito potenciado pelas redes sociais, com um tema tão sedutor - os triângulos amorosos - mostram bem a loucura ou histeria coletiva, que muitos cientistas sociais sublinharam, e os riscos de tal exasperação comportamental e emotiva. Afinal, um jogo deveria ser, simplesmente, um jogo; um faz de conta!
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