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Fernanda Cachão

Fernanda Cachão

Editora da Correio Domingo

Língua afiada

20 de abril de 2025 às 00:30

Se a borracha no Porto é o safa, pois safa o autor da asneira permitindo apagar o erro no papel -, o aguça é o objeto que afina a ponta romba e sem préstimo para escrever. No resto do país é conhecido por apara-lápis ou simplesmente, afia. Aparece descrito pela primeira vez num livro francês de 1822, que relatou em detalhe a invenção de C. A. Boucher, sujeito de Paris que primeiro desenvolveu o pequeno objeto que permitiu aguçar a ponta dos lápis. Dificilmente as novas gerações, entregues ao teclado e aos emojis para comunicar por escrito, deverão perceber totalmente o alcance maravilhoso da expressão antiga ‘língua afiada’. Era geralmente proferida em jeito de crítica ou pelo menos com sarcasmo a propósito de alguém. Aquele fulano ou sicrano tem a língua afiada – dizia-se. E se a língua fosse da comadre, o defeito era ainda mais grave. O verbo que serve ao lápis para escrever melhor, empregue na língua – caso fosse possível – é defeito. Acho uma tremenda injustiça. Línguas afiadas são melhores que as de trapo.

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