Em Portugal, à falta de pão, aposta-se no circo. E no circo, brilham uns quantos artistas, que se recusam a viver em tendas, a limpar o redondel e a dar comida aos animais. Deviam ser estes os heróis improváveis - não ganham medalhas nem campeonatos, "apenas" euros, dólares e mordomias. Vivem de negócios, de política, de futebol. São espertos que nem alho e sem ponta de vergonha na cara e no bolso. Pensando bem, sempre foi assim, desde os tempos de Roma e de Atenas. O meu amigo Zé dos Pneus dizia, cara séria, que "só trabalha quem não sabe fazer mais nada!". Verdade irrefutável e modernista, que denota as incompetências circenses do assalariado tímido ou sem jeito para habilidades.
Os futebolistas portugueses são dos melhores do Mundo: gostam de pão e também de circo. Os melhores dos melhores trabalharam e trabalham muito. Atente-se em Eusébio e Cristiano Ronaldo. Nem todos, quase nenhum, nasceram em berço dourado, como o guarda-redes francês Hugo Lloris, esforçado rapazinho de Nice, filho de banqueiro de Monte Carlo, que não tem culpa de ser filho de quem é, muito menos de ter apanhado Éderzito pela frente na final de Paris. Lloris, que esteve indeciso entre o ténis e o futebol. Se tivesse escolhido o ténis nunca teria ouvido falar do ‘negão’ Éder.
Éderzito Lopes, rebaptizado Éder, é um rapaz de trabalho. Provavelmente já não se lembra nem sonha com a sua Guiné-natal, mas os tempos dos lares de acolhimento de Braga e Coimbra hão-de dar-lhe volta à alma e à cabeça. Quem seguiu pela TV a marcha do autocarro dos campeões, por entre a chusma de gente nas ruas de Lisboa, teve de fazer um esforço para descortinar por onde andava Éder. Rapaz grandão, encolheu-se lá atrás, atrás dos craques, e ninguém o via. Foi preciso Cristiano ir buscá-lo pelo pescoço, à moda de Quaresma, para que Éder soltasse o que lhe empanturrava a garganta. "Hoje é feriado, c*!" Assim, sem aspas e sem medo. Grito de um rapaz de trabalho que se dá ao luxo de um feriado. Um rapaz que parece ter reencontrado em Lille (que ironia!) aquilo para que está talhado: marcar golos. Comentadores e especialistas, mais os jornais, rádios e televisões, levaram até ao enjoo o epíteto de "herói improvável". Improvável porquê? Éder é o herói mais que provável do Europeu. Porque foi o único ponta-de-lança da Selecção, cuja missão num jogo é... marcar golos.
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