Nada de inesperado. O pior foi perceber que o seleccionador também não alinha em estudar “dossiers” e adora a acção, quanto mais não seja por contraposição com o “status quo” anterior. Se houvesse reflexão talvez as soluções tivessem sido outras. E se fosse ministro, António Oliveira e as suas opções estariam bem enquadradas neste Governo, mas tornar-se-ia um forte candidato na primeira leva de uma eventual remodelação. Então, e agora, como se distrai Portugal?
As presidências abertas começaram com Mário Soares. Diz até uma ex-assessora do antigo presidente que este as aproveitava para fazer oposição ao primeiro-ministro, Cavaco Silva, ampliando e dramatizando as carências do País. Agora é diferente. Jorge Sampaio tem um estilo companheiro, cúmplice, mesmo quando proclama a “agitação democrática” sobre os escombros do “direito à indignação”. Veja-se, por exemplo, a receita para o caso de Barrancos: se os touros morrem na arena à revelia da Constituição, o presidente não dá como conselho fazer evoluir a “tradição” e adequá-la ao desenvolvimento civilizacional, antes sugere um vago compromisso em que a lei deverá contemporizar com a infracção. Pode, pois, a autoridade ficar em casa na próxima oportunidade. Este bónus não teve Fernando Gomes quando, para mal dos seus pecados, trocou o Porto por Lisboa.
Um “renovador” do PCP, de nome Domingos Lopes, queixa-se, segundo o “DN”, de ter sido censurado pelo “Avante”. Notícia duplamente curiosa: primeiro pela classificação dada a mais um daqueles homens que durante décadas apoiou as práticas ora malditas, depois pela descoberta da falta de pluralidade do órgão oficial dos comunistas portuguesas. Pode lá ser?! Logo o “Avante”, que sempre foi um modelo de liberdade! E coitadinho do camarada, que sempre foi um democrata!
Mais vale cair em graça, diz o Povo. Deus nos livre de cair em desgraça, deve pensar António Guterres. Repare-se na solidão do ex-primeiro-ministro: além da comenda presidencial, praticamente só António Costa não se envergonha do passado. Agora o que está a dar é a sofisticação de Carrilho e, por isso, todos os outros solícitos amigos de outrora passam de largo, como se o homem tivesse lepra. Nem sequer as aulas de matemática em bairro social, a que Guterres se impôs como penitência católica, duas vezes por semana, são suficientes para uma palavra de elogio entre a multidão de antigos apoiantes. Em política não deve haver nada mais cruel do que a desilusão de quem vive à conta. E a abdicação de Guterres, convenhamos, estragou a vida a muita gente...
Voltemos ao futebol. A selecção nacional colocou o País em transe, mas finalmente acabou o pesadelo. Agora está tudo claro: Oliveira não presta, Baía é um “frangueiro”, Figo e Rui Costa acabaram, a FPF é dominada por lóbis e o dinheiro do Euro-2004 é muito mal empregado para estes “chulos”. O bom Povo português é assim, mas felizmente também sabemos que recupera depressa. Mais dia menos dia estará de novo a sonhar com feitos impossíveis, esquecido de mais esta frustração. Deixemos, então, passar o azedume, visível até nas críticas dos comentadores normalmente dados ao remanso do politicamente correcto. Não é fácil regressar à realidade, ao desemprego e ao apertar do cinto. Vá lá, vá lá, que vem aí a praia.
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Por Carlos Rodrigues
Ninguém pedia que a Europa marchasse com Israel e os EUA para o Irão.
Enquanto o COI impedia homens biológicos de baterem em mulheres, por cá a gente entreteve-se com uma pseudo-traição na ‘Secret Story’ e a bolha mediática acha mal José Luís Carneiro pressionar pela libertação de presos políticos.
Hoje, o desafio não é reescrever o texto constitucional, mas cumprir o seu espírito.
Os filhos levam tempo até perceber que os pais também são humanos.
Somos dos países mais seguros. Porquê? Porque somos dos mais subdesenvolvidos.