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Tal como os amantes em tempo de amores mortos, “já gastámos as palavras” a falar dos incêndios. Área ardida, número de ignições, limpeza da floresta, condições climatéricas, meios aéreos, profissionalização dos bombeiros e fogo posto são expressões tão repetidas que quase perderam o significado. Em cada novo ano, intensifica-se o combate e lamenta-se que o esforço não seja coroado de maior sucesso.

No passado domingo, nas páginas do CM, os antigos ministros Jorge Coelho e Dias Loureiro assinalaram, com conhecimento de causa e sentido de justiça, que o Governo e o actual titular da Administração Interna, António Costa, tudo têm feito para debelar o problema. Porém, subsiste um sentimento de impotência: haja o que houver, no próximo Verão temos encontro marcado com os incêndios.

Há cerca de um ano, Paulo Varela Gomes traçou um retrato lúcido e amargo da situação (‘Público’ de 11/08/05). Os fogos de Verão são “incêndios do regime” instaurado pela Revolução de 1974. São incêndios da III República, que assiste com impávida cupidez à “perda” progressiva de território. As florestas de pinheiros e eucaliptos, que substituíram a agricultura tradicional, e as matas periurbanas, desordenadas e sujas, não estão preparadas para resistir a este flagelo sazonal.

O que fazer então? Limpar as florestas, condicionar a plantação de eucaliptos e pinheiros, proibir a construção na área ardida, criar estruturas profissionais de bombeiros e investigar e punir sem desfalecimento os crimes são medidas com as quais todos estamos de acordo. Até gestos simbólicos, como a presença de ministros e secretários de Estado junto aos sinistros, são recomendáveis para dar ânimo às populações e aos bombeiros.

Todavia, é de temer que tais medidas não bastem. Para enfrentar o problema é necessário assumir, perante as gerações futuras, o compromisso de reconquistar o território, porque é de uma verdadeira reconquista que se trata. Repovoar o Interior constitui um desafio complexo que se coloca ao Povo Português. A tarefa não é de uma legislatura, mas provavelmente de meio século.

Os incêndios florestais serão, talvez, “incêndios do regime” (apesar de a “desruralização” ter começado muito antes e já Marcello Caetano haver projectado o repovoamento), mas não da democracia. Só o aprofundamento do sistema democrático permitirá superar o “défice de educação ambiental e de civismo” que Vital Moreira referiu na ‘blogosfera’, em comentário a Varela Gomes. Nessa perspectiva, o nosso maior erro recente terá sido recusar a regionalização e a lógica de responsabilidade colectiva que lhe subjaz.

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