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Em Novembro de 2005 o Governo apresentou como irreversível o projecto da Ota. Perante essa atitude ‘definitiva’ escrevi um artigo que, sob o título ‘Longa Vida à Ota’, defendia o fim de todo o tipo de querela desde que o executivo fosse responsável e sensato.

Tal pressupunha acautelar o desígnio estratégico do Aeroporto Sá Carneiro, hegemonizando a sua influência a todo o noroeste peninsular, contextualizando um ordenamento equilibrado de todo o contínuo urbano que se estende a ocidente, de Leiria até Lisboa, e evitando criar focos de irritação decorrentes de discriminações negativas regionais.

Ora, o Governo, numa cavalgada de progressiva arrogância, isolou-se do País. Hostilizou tudo e todos, confortado por enganadores estudos de opinião.

Cavalgou a saga do fecha, fecha, fecha. Maternidades, escolas, tribunais e tudo o mais que estivesse aberto. Desde que longe dos grandes centros onde, segundo o seu juízo, existem menos votos para adular.

Desenvolveu reformas, umas justas, outras erradas, mas todas de acordo com o mesmo padrão de comportamento. Quero, posso e mando.

Era óbvio que a corda tinha de quebrar. Esticou à volta do fait divers relativo à licenciatura do primeiro-ministro e começou a dar de si quando alguns sectores desenterraram, com alguns argumentos respeitáveis, a problemática da localização do novo aeroporto.

Acossado, o Governo reagiu como o vinha fazendo, autoritariamente, avaliando mal o peso da acumulação do descontentamento popular.

Face a esta mudança de maré veio ao de cima o camaleonismo nacional. João Cravinho, o mais fundamentalista defensor da Ota, aconselha uma reponderação. Elisa Ferreira, que sufragou o chumbo de Rio Frio, exige explicações, Dirigentes do meu próprio partido, que aprovaram um programa de Governo que reiterava a aposta na Ota, indignam-se. Uma parte da sociedade civil institucional acordou para o habitual estertor, curto e sincopado, com que costuma interromper os seus longos consulados de subserviência em relação ao poder estabelecido.

Pela minha parte não mudei. Tenho, como tinha, dúvidas, e critico veementemente um Governo que nesta área tem saltado de trapalhada em trapalhada. Leia-se metro do Porto, TGV ou Ota.

Critico a ânsia estatista que se imiscui nas OPA, adora projectar e principalmente adjudicar, sufocando a sociedade civil.

Condeno a falta de senso de quem não entende que, por sua culpa, se alterou a realidade, aconselhando a uma reabertura de um diálogo consequente e de uma concertação alargada.

Em coerência com os dados conhecidos aconselhava duas soluções alternativas.

Uma, apontada por Ferreira do Amaral, passa por criar as condições mínimas para que a Portela aumente a sua semivida pelo tempo mínimo suficiente ao aprofundamento dos estudos necessários a uma decisão final acertada.

A segunda, lançando de imediato um concurso público muito aberto, que, a par da privatização da ANA, seja suficientemente elástico, de forma a transferir para a sociedade e para o mercado a responsabilidade de propor soluções globais variantes.

Entretanto, seria conveniente que José Sócrates aprendesse a lição. Nem sempre se sobrevive ao corte de confiança decorrente da interdição de ‘um feriado de Carnaval’.

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