O vocabulário da nação política acaba de ser enriquecido com uma preciosa expressão.
Cheia de potencialidades e indutora de virtuosas adaptações. E que, em última instância, pode vir a revelar-se, mesmo, a salvação desta salsada em que se tornou a nossa vida política. Onde tudo acontece e tudo é, democraticamente, possível.
É uma expressão simples, curta e auto-suficiente. Tem, apenas, duas palavras: ‘paciência democrática’. E está tudo dito. Usou-a, com mestria, Jorge Coelho para nos dar conta do seu estado de espírito, depois de a sempre atenta e vigilante Polícia Judiciária ter invadido a sua residência à procura de um perigosíssimo tabuleiro de xadrez, capaz dos piores crimes.
Foi este episódio que nos revelou todas as, ainda inexploradas, potencialidades do recém-adquirido conceito. E como ele pode ser inexcedivelmente eloquente. Não tivesse ele aparecido, e já ninguém daria um tostão furado pelo futuro do sistema. Que todos julgávamos sem remédio. Mas não. As coisas agora mudaram. A paciência democrática é o cimento que faltava ao reforço da estrutura do edifício democrático e com ela tudo promete mudar.
É certo que a sua solidez não está ainda definitivamente demonstrada. Que os fundamentos filosófico-políticos não estão ainda exaustivamente discutidos. E que, provavelmente, se esgota como a paciência não democrática. Dita vulgar.
Mas já deu para perceber que ela é a paciência das paciências e que as suas virtudes são praticamente infinitas. O conceito não é só inovador e tranquilizante. Pode ser a salvação de todos nós e a garantia da nossa sobrevivência neste teatro do absurdo.
Ela é o polo positivo da ‘impaciência democrática’, esse terrível monstro que Cavaco não conseguiu ver, e que estava a tornar os nossos dias (e noites...) cada vez mais negros.
Com a paciência democrática, como que num passe de mágica, apenas com um ligeiro encolher de ombros, integramo-nos habilmente na realidade, reagimos com serenidade a todas as patranhas, apaziguamos os nossos impulsos destrutivos, não nos sentimos abusados, nem insultados, nem ofendidos. Não deprimimos, nem endoidecemos. Passamos a olhar para os nossos políticos como quem olha para inocentes criancinhas ou incapazes, que com a maior candura (e a nossa compreensão) nos vão destruindo a mobília.
Em Janeiro, por exemplo, sejam quais forem os resultados das presidenciais, a metade dos portugueses que não tiver acertado no boletim premiado não vai arrancar os cabelos ou perder o sono. No uso da sua melhor paciência democrática irá para a cama serenamente, como se os céus nos tivessem brindado com o melhor dos destinos.
Porque a paciência democrática não é como a paciência de Job, que é fatalista até dizer chega e só garante que a seguir a uma desgraça virá sempre outra, como tem sido o nosso caso. Pelo contrário. Propõe-se substituí-la.
Acreditem. O conceito pode salvar-nos. Nos anos que nos esperam não poderemos contar com mais nada para aliviar os nossos males e frustrações. Aproveitemos, porque será ela ou o regresso à paciência de Job.
Só é pena que não se venda nas farmácias.
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Por Carlos Rodrigues
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