José Saramago, em artigo no “El País”, resolveu finalmente tirar a cabeça da areia em relação aos crimes cometidos pelo governo de Fidel Castro. O acto pode sugerir apenas coragem, porque no pequeno Portugal ser ortodoxo e sectário às vezes até é tido como sinónimo de coerência, além de que alguns exemplares fazem mesmo questão de morrer fiéis a utopias. No entanto, em Espanha, o país da escolha do escritor, as coisas passam--se de maneira diferente. A opinião pública existe e condiciona. Não admite o discurso inflamado a favor da Vida no Iraque conjugado com o silêncio cúmplice face às execuções em Cuba. O desprezo pelos Direitos Humanos do mais antigo ditador do mundo é doença conhecida, tratada com desprezo pela generalidade dos cidadãos, dela se tendo curado em tempo todos os juvenis admiradores de Che Guevara. José Saramago, por idiossincrasia, resistiu na fé, demorou a romper os laços de amizade – e até aqui veio. Ora, atendendo à duração do trajecto, é de salientar, sobretudo, a paciência.
Ainda Cuba. Com 24 votos a favor, 20 contra (!) e nove abstenções, a Comissão de Direitos Humanos da ONU, presidida pela Líbia, conseguiu fazer passar uma leve crítica ao regime castrista, sem nenhuma condenação explícita e muito menos sem qualquer referência às três pessoas mortas na recente onda repressiva. A ONU, contra a vontade de Rússia, China, Índia, Paquistão e outras “democracias”, só deseja, delicadamente, incomodar o sr. Fidel com o envio de uma observadora. Por muito que todos gostemos de equilíbrios de poder, como podemos pedir aos Estados Unidos e a George W. Bush que, com o terrorismo à perna, percam tempo com esta ONU?
Um mês depois, no Iraque já se discute a transição. Quer isto dizer que Rumsfeld e Franks prepararam bem a guerra – tanto quanto uma guerra pode ser preparada, no sentido de que seja rápida e com o menor número de baixas possíveis. Desgraçadamente, esse esforço não terá sido acompanhado por idêntica preparação do pós-guerra. As preocupações com os poços de petróleo e o baralho de cartas acabaram por dar todos os trunfos à pilhagem individual e à competência das máfias ligadas ao tráfico de arte. A demissão de dois assessores culturais da Administração Bush, em protesto pelo sucedido, é, na medida do possível, um sinal positivo: o de que, no “laboratório” de guerra descrito por Rumsfeld, se terá ao menos aprendido alguma coisa com o saque ao Museu Nacional de Bagdad. Na História, não se tenham dúvidas, este episódio de incompetência e desleixo terá mais espaço que o relativo à queda do miserável ditador. Saddam só vale umas linhas e na capital iraquiana, em poucas horas, perderam-se páginas e páginas.
Há cerca de 50 anos, a Europa estava em ruínas. Hoje continua a construir o “puzzle” da União. De 15 países vamos passar a 25 em Maio de 2004, ainda que o Euro não seja a moeda de todos e a unidade na política externa seja pouco menos que uma miragem, mesmo a longo prazo, como se percebeu pela cimeira dos quatro poderosos (Inglaterra e Espanha, versus França e Alemanha), à margem da cimeira de Atenas. A União Europeia deve continuar a perseguir objectivos económicos e a promover consensos mínimos. Mais tarde, com a Rússia, a Turquia e a Albânia juntos a todos nós, será possível aspirar a mais do que isso?
Francisco Pedro tinha 93 anos e havia sido ouvido pelo Tribunal de Portimão por motivos vagamente aparentados com aqueles que pesam sobre Carlos Cruz. Provavelmente, nem teria sido detido se não fosse a grande relevância dada à pedofilia e seus derivados pelo mediático processo de Carlos Cruz. Encontrava-se a aguardar o julgamento sob termo de identidade e residência quando, na mesma Sexta-Feira Santa escolhida por Carlos Cruz para protestar a sua inocência, decidiu colocar uma corda ao pescoço. Segundo os familiares, a morte deve-se à vergonha. Não à vergonha por algum acto que tivesse praticado, mas sim à vergonha perante a sociedade. Fosse, contudo, a vergonha de duas naturezas. Era um vulgar habitante deste País. Ele não conhecia mesmo “Bibi” ou Ferreira Diniz, não tinha um advogado mediático, nem era sabedor de formas de defesa pública através de jornais para condicionar juízes. Acima de tudo, aos 93 anos, também não tinha tempo. Mas tinha vergonha, dizem. Ao menos isso.
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Por Carlos Rodrigues
Ninguém pedia que a Europa marchasse com Israel e os EUA para o Irão.
Enquanto o COI impedia homens biológicos de baterem em mulheres, por cá a gente entreteve-se com uma pseudo-traição na ‘Secret Story’ e a bolha mediática acha mal José Luís Carneiro pressionar pela libertação de presos políticos.
Hoje, o desafio não é reescrever o texto constitucional, mas cumprir o seu espírito.
Os filhos levam tempo até perceber que os pais também são humanos.
Somos dos países mais seguros. Porquê? Porque somos dos mais subdesenvolvidos.