E não, não sou eu que sou muito esperto – os discursos públicos de quem nos governa é que andam mais vazios do que os cofres do Banco de Portugal. Numa altura de urgência como esta, ouvir Cavaco Silva e José Sócrates a arengar no 5 de Outubro faz-nos desejar estar no coche de D. Carlos enquanto ele passeava pelo Terreiro do Paço, a 1 de Fevereiro de 1908. Dêem-me um tiro, por favor.
Como é possível que um país que enfrenta a maior crise económica desde 1983 tenha de ser submetido a tamanha quantidade de lugares-comuns? Como é possível ainda debitar discursos com expressões como "coesão nacional", recusa do "negativismo", "cultura de diálogo e de responsabilidade", "compromisso político" e "vontade de vencer"? Tanto protocolo para tão rançosa babugem.
Os discursos do 5 de Outubro poderiam ser os discursos do 10 de Junho, do 25 de Abril, do Ano Novo, do Natal e até do 13 de Maio, se acaso Nossa Senhora fizesse a sua aparição nalgum dos parágrafos. Mais deprimente do que o défice económico, caros leitores, é este hiperbólico défice de ideias. Fazer um discurso decente não custa dinheiro. Só exige um mínimo de sensibilidade e de talento. Em vez disso, levámos com as 25 palavras ocas do costume, como se fossem o mantra que irá salvar a pátria. Até hoje, não salvou.
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Por Carlos Rodrigues
Enquanto o COI impedia homens biológicos de baterem em mulheres, por cá a gente entreteve-se com uma pseudo-traição na ‘Secret Story’ e a bolha mediática acha mal José Luís Carneiro pressionar pela libertação de presos políticos.
Ninguém pedia que a Europa marchasse com Israel e os EUA para o Irão.
É caso para temer que seja mais do mesmo.
Hoje, o desafio não é reescrever o texto constitucional, mas cumprir o seu espírito.
Somos dos países mais seguros. Porquê? Porque somos dos mais subdesenvolvidos.