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Esta semana morreu Henrique Mendes. Recordado por muitos como um ‘senhor da televisão’, Mendes teve uma vida inteiramente dedicada à comunicação, tendo sido uma das primeiras estrelas do pequeno ecrã em Portugal. Morreu, vítima de um cancro na medula óssea, ao início da tarde de quinta-feira. Tinha 73 anos.

Sereno, olhos claros, um charme discreto, gestos de cavalheiro, um timbre de voz inconfundível. Henrique Mendes era assim, visto por fora. Dentro de si guardava, contudo, uma mágoa antiga, imensa, que nunca haveria de ultrapassar. A mágoa nasceu depois do 25 de Abril, quando Henrique Mendes seria um dos muitos saneados da revolução. De um momento para o outro, viu-se afastado da empresa, despedido, como se não tivesse dado 18 anos da sua vida à RTP, onde fez de tudo. Apresentou noticiários, espectáculos de variedades, festivais da canção. Chegou a ser famoso, quando Portugal ainda se espreitava de Norte a Sul no ecrã a preto e branco da TV do Estado.

Sem trabalho, visto de soslaio pelo poder dominante, Henrique Mendes resolveu emigrar. Foi em 1975 que se exilou voluntariamente, com Glória de Matos, sua mulher, para as distantes terras do Canadá. Foi uma travessia de deserto de quatro anos. Mais tarde, recordando esses anos de tumulto, haveria de dizer que nada poderia apagar o sentimento de injustiça: “Não há dinheiro nem reabilitação no mundo que me apagam o que fizeram”.

No outro lado do Atlântico, fez noticiários e apresentou programas para a comunidade portuguesa em Toronto. Mais tarde, juntamente com um amigo, fundou a Asas do Atlântico, uma rádio local. Regressa a Portugal em 1979, não resistindo aos insistentes apelos dos amigos, em especial de Raul Solnado. O regresso marcou o início de uma vida nova. Foi nomeado director de programas da Renascença. A sua voz ecoou mais 18 anos nos microfones desta rádio. Em 1992, Emídio Rangel convida-o para a SIC. Esse gesto representaria o renascer do ‘velho senhor’. Portugal redescobriu-o e ele reencontrou-se consigo próprio.

Escrevo estas linhas como quem redige um elogio. Ele deu tudo de si pela TV em Portugal. Na RTP e na SIC, foi apresentador e actor. Fez sonhar multidões. Foi incompreendido e viveu amargurado anos a fio. Num tempo em que as vedetas de TV se banalizam com extrema facilidade, é importante registar este exemplo de vida, de enorme coerência, de sacrifício. As pessoas gostavam de Henrique Mendes, mas ele, na sua extrema simplicidade, fugia, quase, das multidões. Que contraste com os dias de hoje onde tantos se põem em bicos de pé para aparecerem debaixo das luzes da ribalta… Henrique Mendes morreu ao início da tarde de quinta-feira, dia 8. Tinha 73 anos.

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