A esquerda marxista leninista descobriu um novo ideal aglutinador de vontades. O ódio ao ianque.
Com a guerra em curso, foi montando diariamente as suas ficções.
A guerra ia ser muito longa. A resistência das forças iraquianas do Sul era impressionante. Os americanos não conseguiam controlar Umm Qasr e os britânicos não entravam em Bassorá. As tropas turcas estavam prontas para uma invasão. Os acidentes com "fogo-amigo"eram sinal de desnorte. A batalha de Bagdad ia ser um horror. No fundo, tinham a esperança de recriar o mito de Estalinegrado, que incendiou o coração de gerações de estalinistas.
Ao mesmo tempo, muitos dos órgãos de comunicação social, com uma atitude à Robin dos Bosques, não se cansavam de repetir imagens e declarações favoráveis a Saddam Hussein. Os hospitais iraquianos com vítimas civis, as imagens de militares americanos, prisioneiros ou esfacelados, as manifestações antiguerra e pró-Saddam.
O desejo de muitos "pacifistas" era óbvio.
Desejavam uma guerra longa, com muitas baixas entre os aliados e com milhares de mártires civis. Aspiravam pela salvação de Saddam, qual Saladino mobilizador do mundo árabe. Nas suas mentes revolucionárias, já anteviam Moubarak decapitado em frente à Grande Pirâmide, o Rei da Jordânia enforcado em Petras e o fundamentalismo a tomar conta de Rabat.
As contas saíram-lhes furadas. O regime de Saddam caiu em três semanas. O número de vítimas militares da coligação ainda é menor do que na primeira guerra do Golfo. O número de vítimas civis iraquianas, obviamente lamentáveis, é, segundo os últimos números do regime, inferior a 2000, ou seja 50% das vítimas do atentado às "Twin Towers".
Todavia, com a guerra a terminar, continua o discurso obcecado. Afinal, o mais fácil era vencer a guerra. O difícil é fazer a paz. E lá vêm as constatações e as profecias catastrofistas.
As cidades estão um caos, sem autoridade, abandonadas às pilhagens. A crise humanitária não tem precedentes. Obras-primas da Humanidade estão a ser vandalizadas. A reconstrução política é impossível porque as divisões étnicas são insuperáveis. Os opositores são corruptos e a sociedade civil débil.
Tudo isto é verdade, mas nunca imputável a quem fez cair o ditador.
A ausência de autoridade e o caos decorrem da fragilidade de um regime que, com a debandada da sua nomenclatura, mostrou a sua debilidade. A falta de credibilidade da oposição decorre do facto de milhares de opositores credíveis estarem enterrados um pouco por todo o Iraque. Os ódios étnicos são filhos da repressão e de vários genocídios. A fraca classe média resulta de uma sociedade onde só existiam os abastados membros do Partido Baas e os deserdados de Saddam City. O único culpado por tudo isto é o dominó de terror que agora ruiu. É verdade que o desafio da reconstrução é enorme e possível, mas muitas outras coisas têm de acontecer em sequência.
É urgente colocar uma pedra sobre o eterno conflito israelo-palestiniano, verdadeiro vírus que infecta permanentemente todo o mundo árabe. É inadiável encarar de frente a reforma institucional da ONU.
O mundo necessita de uma ordem internacional assente na lei e no Direito. Essa nova ordem só será, contudo, construível, à volta de uma organização onde a Síria, o Irão, a Coreia do Norte e tantos outros não possam presidir à Comissão dos Direitos Humanos, onde o direito de veto não esteja ligado a uma realidade com mais de 50 anos, onde uma minoria de democracias conviva com uma maioria de ditaduras.
A prazo, só deviam ser aceites como membros da ONU os países que cumprissem com a Declaração Universal dos Direitos do Homem e legitimassem o poder através do sufrágio directo e universal.
Para começar, já não seria mau que estas fossem exigências para se ser membro do Conselho de Segurança.
Ainda tenho esperança que isso aconteça e que a velha ONU seja substituída por uma nova ONDU.
*Organização das Nações Democráticas Unidas
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Por Carlos Rodrigues
Ninguém pedia que a Europa marchasse com Israel e os EUA para o Irão.
Enquanto o COI impedia homens biológicos de baterem em mulheres, por cá a gente entreteve-se com uma pseudo-traição na ‘Secret Story’ e a bolha mediática acha mal José Luís Carneiro pressionar pela libertação de presos políticos.
Hoje, o desafio não é reescrever o texto constitucional, mas cumprir o seu espírito.
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