Com o tempo, percebeu-se que esse atributo de divino seria impossível de aguentar mas o homem não pareceu preocupar-se com o assunto, insistindo em diversificar, aplicando o seu jogo de mãos às seis cordas eléctricas que já o imortalizaram. Ou seja, entrou na fase madura, em que pode – legitimamente – divertir-se com cada novo registo, sabendo que os fiéis continuarão a prestar-lhe vassalagem e que a sua ‘conduta’ continuará a merecer aprovação generalizada.
Ao ponto de Mr. Eric Clapton poder, agora mais do que nunca, dar-se ao luxo de fazer quase exclusivamente o que lhe dá prazer. E essa é, de resto, a primeira palavra que nos assalta como reacção quando se ouve ‘Me and Mr. Johnson’ (ed. Warner, à venda amanhã). Por duas ordens de razões, cumulativas e colocadas em crescendo: primeiro, trata-se de um álbum de ‘blues’, num valente e apaixonante regresso às origens, com a sua seita de parceiros mais próximos. A saber: o baixista ‘swingado’ que é Nathan East e o baterista ‘implacável’ que é Steven Gadd. Para as ‘flores’, acrescentam-se ainda as presenças do veterano Billy Preston, no piano e no velhinho órgão Hammond, bem como das guitarras de apoio de Andy Fairweather Low e Doyle Bramhall II, da harmónica de Jerry Portnoy e, ocasionalmente, de outros dois ‘craques’, Jim Keltner e Pino Palladino. Ou seja, não se descobre aqui um elo mais fraco.
O panorama ainda melhora, quando se sabe que as 14 canções aqui chamadas à voz desprendida e à guitarra diletante de Clapton vêm da pena distante de um dos históricos ‘inventores’ dos ‘blues’, tal como os conhecemos: Robert Johnson, dono de uma breve mas categórica carreira na década de 30 do século passado. Tão breve que Johnson só teve tempo para ‘mostrar’ 29 temas próprios; ou seja, depois de algumas incursões anteriores, quando integrava os John Mayall’s Bluesbreakers e os Cream, Clapton ‘re-trata’ aqui quase metade do património disponível. E explica: “É para mim notável que, ao longo de toda a minha vida, me tenha sentido motivado e influenciado pela obra de um homem. Ainda assim, não encaro esta relação como obsessiva; pelo contrário, é como se me servisse de farol, ao encontro do qual procuro navegar, a cuja luz regresso de cada vez que me sinto mais à deriva. Tantos anos depois, olho para esta música como o meu amigo mais antigo, sempre presente no meu subconsciente, sempre à vista no meu horizonte. É a melhor música que alguma vez ouvi. Sempre confiei na sua pureza e continuarei sempre a tê-la como referência”.
Postas as coisas desta forma, só vale a pena acrescentar que este trabalho de amor e de tributo não deverá falhar, lá mais adiante, a hipótese de Eric Clapton levar mais longe o número assombroso de Grammy que já conquistou – nada menos de 16. Entre a dolência das lentas e a ‘pressa’ das rápidas, este é um disco sem falhas, cheio de brilhos sem precisar de plumas e lantejoulas, uma aula prática para quem acredite na simplicidade drástica e na verdade profunda dos ‘blues’. Olha que dois que se juntaram!, apetece dizer. Não apetece é parar de ouvir. Até como prova de que há vida – e que vida – ‘depois’ de Deus.
A experiência está a uns passos largos da perfeição, mas vale pelo arrojo, pela voz e pela vontade de voltar a estilhaçar as fronteiras que costumam rodear o Fado. Mesmo quando alguns arranjos mereciam maior economia, ‘Fado.pt’ (ed. Different World) acaba por valer a aventura sonora que mistura a guitarra portuguesa com as programações rítmicas, os poemas de consagrados (Pessoa, Florbela, Torga, Mourão-Ferreira, Alegre) com melodias inspiradas. LIANA merece o voto de confiança, a confirmar.
Depois de Maria Rita, no princípio do ano, aí está a segunda presença de revelação brasileira nos palcos portugueses no ano de graças de 2004: VANESSA DA MATA, natural de Mato Grosso, um álbum apenas – singelamente homónimo –, uma sensibilidade e um vozeirão que fazem dela mais do que uma esperança, antes uma certeza da renovação de quadros constantes na música do Brasil. A 27, estreia-se na Figueira da Foz, a 29, estará em Lisboa, na noite seguinte, no Porto.E vai arrasar, querem uma aposta?
Se a novela cansa, a banda sonora de ‘Queridas Feras’ (ed. Farol), 16 canções, é uma montanha russa, deixando à vista que o critério de selecção… não existiu. É certo que há Luís Represas, que se ouvem os Toranja, que Mafalda Sachetti surpreende com uma versão limpa de ‘Sol de Inverno’. O pior é quando saltam os disparates, nalguns casos sem matéria-prima para defender: Beto, Gilda, Pólo Norte, António TC Cruz (mudou de nome outra vez?) e até as ‘ressuscitadas’ Doce. Poucas ‘feras’, em suma.
O que é feito de Paolo Conte, Eugénio Finardi, Lucio Dalla, de Franco Batttiato? Ou seja, o que é feito dos genuínos ‘crooners’ e ‘rockers’ italianos, tão desaparecidos das nossas acessibilidades? A pergunta coloca-se diante de ‘The Best Of Nek – L’Anno Zero’ (ed. Warner), que só corrobora o que já se sabia: este homem é a Laura Pausini de calças. Música ligeirita, inconsequente. NEK? Não, nem numa colectânea que promete o melhor mais duas inéditas, num total de dúzia e meia de banalidades.
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Por Carlos Rodrigues
Enquanto o COI impedia homens biológicos de baterem em mulheres, por cá a gente entreteve-se com uma pseudo-traição na ‘Secret Story’ e a bolha mediática acha mal José Luís Carneiro pressionar pela libertação de presos políticos.
Ninguém pedia que a Europa marchasse com Israel e os EUA para o Irão.
Hoje, o desafio não é reescrever o texto constitucional, mas cumprir o seu espírito.
É caso para temer que seja mais do mesmo.
Não parecendo uma pessoa extrovertida, o Papa Leão XIV transmite algo de ternurento e carinhoso.