O‘Prós e Contras’, na RTP 1, segue uma fórmula simples e eficaz (embora, como veremos, não infalível): escolher o assunto mais palpitante da semana e patrocinar um escabeche dos dois lados da barricada. Quando Fátima Campos Ferreira despontou no telejornalismo nacional, ela não lia as notícias: declamava-as, com a grandiloquência bombástica de um Villaret.
Evoluiu, e pilota o ‘Prós e Contras’ com segurança. Claro que uma emissão em directo é patinar em gelo fino. Na discussão do Acordo Ortográfico (uma questão internacional), alguém na plateia exprimiu a sua perplexidade por no palco só estarem Portugueses. A apresentadora exclamou singelamente: "Ah, é que estamos em Portugal!" Por vezes, a língua é mais rápida do que o cérebro. A peça introdutória do programa visa esclarecer os espectadores sobre a polémica em causa.
Todavia, tudo depende muito do desempenho dos convidados – no caso do Acordo Ortográfico, desconfio que o debate só agravou a embrulhada. A professora Maria Alzira Seixo passou a noite mais preocupada em compor o penteado do que os seus argumentos desgrenhados. Na verdade, o Acordo muda pouco: as letras k, w e y saem da clandestinidade; o trema é abolido, bem como as consoantes mudas ("óptimo"); desaparecem os acentos diferencial e circunflexo ("crêem"); o hífen some de "anti-semita", mas brota em "microondas".
Ambas as margens do Atlântico fazem concessões, mas em Portugal há quem se queixe de um "abrasileiramento" do idioma. No Brasil, todavia, também há imensa gente contra ou indiferente. Com a reforma, a ONU poderá usar o Português como uma das suas línguas oficiais, o que hoje não é possível pela falta de uniformidade ortográfica. A simplificação parece-me pertinente. O Inglês, por exemplo (a língua franca actual), de tão básico é quase o idioma do Filho das Selvas (‘Me Jane, You Tarzan’). Facílimo de aprender. Com os linguistas, todo o cuidado é pouco – têm uma vocação para empalhadores.
Convém lembrar o óbvio: as pronúncias não mudarão, nem as expressões idiomáticas, geradas pelos respectivos contextos e sensibilidades culturais. Neste último caso, porém, avulta a prova de que as línguas são entidades vivas (com a excepção das línguas mortas, que estrebucharam de tédio nas mãos dos eruditos). Daí que ninguém as possa blindar. Nos boletins televisivos sobre o trânsito, sumiu aos poucos o termo "bicha" – precisamente pela sua conotação brasileira. O que não impede, claro, que as bichas continuem a existir dos dois lados do oceano – e em todos os sentidos.
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Por Carlos Rodrigues
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