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1. Como é que um primeiro-ministro demissionário demite ou aceita a demissão de um ministro demissionário de um Governo demissionário? Vale tudo. Esta estória da visita de Morais Sarmento à Ilha do Príncipe, onde esteve no bem-bom, isto é, no Bom-Bom, faz-me mergulhar nas incidências do futebol, em cujo universo o bem bom para muita gente (dirigentes, empresários, árbitros, etc.) esteve na base da criação do varadouro Mau-Mau, que é onde se situa, neste momento, toda a (des)organização da bola indígena.

2. A falta de coesão do Governo de Santana Lopes, antes e depois do momento em que o PR decidiu dissolver a AR, faz lembrar a falta de coesão de muitas estruturas futebolísticas, clubes e SAD incluídos, e ultrapassa largamente as declarações de (des)lealdade que perpassam pelos discursos de muitos dirigentes desportivos. Se Santana Lopes sente facas cravadas nas costas, o que podem sentir Nobre Guedes, Morais Sarmento, Henrique Chaves, Pôncio Monteiro, entre outros – apenas cortes de lâmina na face como quem faz a barba a meninos?

3. Este Governo demissionário de Santana Lopes e a sua vontade de ressurreição para 20 de Fevereiro fazem lembrar o futebol do Benfica: entre entradas e saídas, a sensação de vazio e total descontrolo.

4. Santana Lopes parece querer escamotear que foi primeiro-ministro com os resultados que se conhecem, apostando na constituição de uma nova e putativa equipa-maravilha; Filipe Vieira, especialista em construir e destruir equipas-maravilha – daí, talvez, as ligações do futebol à construção civil... – parece longe de equacionar a demissão perante algum facto que se possa projectar nas próximas semanas (meses?), reafirma a sua confiança em Trapattoni e José Veiga (como Santana Lopes acabou por fazer em relação a Morais Sarmento, depois de se confessar ‘incomodado’ com a situação) e já definiu as condições de um calendário pré-eleitoral, resultante apenas de meras críticas levadas a cabo por benfiquistas (Gaspar Ramos e Manuel Boto), naturalmente com direito à opinião.

5. A reacção de Luís Filipe Vieira (LFV) às críticas efectuadas por vários quadrantes da nação benfiquista mas amplificadas nas pessoas de Manuel Boto e Gaspar Ramos, após a miserável exibição do Benfica em Alvalade, onde a equipa entrou em campo com o espírito de quem vai participar num casamento e o treinador deu a sensação de estar fossilizado no banco de suplentes, sobretudo quando o Sporting ficou reduzido a dez unidades e nem Álvaro Magalhães teve a iniciativa de dar uma alfinetada no bumbum de Trapattoni, foi completamente extemporânea e despropositada.

6. A entrevista à TVI (muito bem, como sempre, Pedro Pinto como entrevistador) serviu apenas para reiterar confianças. Ou desconfianças?

7. Não há dúvida, porém, que depois da entrevista panfletária concedida no começo da semana do Sporting-Benfica por José Veiga a ‘A Bola’, onde o ‘homem-forte’ do futebol dos encarnados disse, preto no branco, que o Benfica não tem nem sequer um euro para aquisições, LFV reivindicou para si, outra vez, todo o tipo de protagonismo. Não muito bem utilizado, talvez porque no Benfica continua a achar-se que o ruído interno se compensa com mais intenso ruído interno, o que significa que a famigerada ‘feira de vaidades’ tantas vezes criticada pelo presidente do clube da águia ainda não foi encerrada para obras ou balanço.

8. A sensação que se colhe é que o problema da ‘bicefalia’ interna do Benfica, que já minou noutros momentos o Sporting por dentro, conhece novo impulso. Depois de Vilarinho/Vieira, com preponderância de Vieira, agora temos Vieira/Veiga, com predominância disputada.

9. Conclui-se, pois, que o problema da liderança no Benfica volta a estar na ordem do dia.

10. Apesar das juras de unidade (recordam-se do que se passou com Vilarinho/Vieira, a fazer eclodir várias manchetes no ‘jornal oficial’ com a palavra UNIÃO em parangonas?), é óbvio que se compreende algum incómodo.

11. A citada entrevista (?) é um exemplo. Nessa entrevista (?), Veiga não deixa de criticar o facto de Camacho ter vindo a Lisboa por causa do lançamento de um livro e merecido a presença muito amiga e fraterna de LFV.

12. Vamos lá a ver uma coisa: mesmo que se queira separar as situações, num clima de grande unidade Veiga teria evitado ‘aquela entrevista’ naquele momento e LFV teria considerado inoportuna a sua presença num evento daquela natureza, uns dias antes do Benfica-Sporting, sobretudo quando se sabe que Veiga foi muito hábil a despachar Camacho pela única porta possível.

13. Não é normal que o assessor de comunicação (Cunha Vaz) tenha criticado o comportamento de José Veiga na conferência de Imprensa que se seguiu ao Benfica-FC Porto, na qual se lavou muita roupa suja, e tudo tenha ficado na mesma.

14. De resto, o novo jornal ‘Benfica’ promete notícias verdadeiras e em primeira mão porventura para acabar com as novelas Robinho e suas bravatas. É que, por exemplo, no meio de tantas ‘notícias-de-artifício’, Sokota chegou a ser dado como certo nos próximos quatro anos (em manchete) e conhece-se-lhe, agora, o caminho.

15. Trapattoni é um treinador cuja contratação foi promovida e concretizada por José Veiga e o italiano, não obstante as carências que se lhe deparam, difíceis de colmatar, é tudo menos um exemplo de criatividade.

16. O Benfica, para disfarçar esses défices, não pondo em causa a competência e o passado de ‘Trap’, necessitaria de um treinador dinâmico, alegre, inconformado, com pujança enorme e contagiante.

17. A mumificação do banco do Benfica é um problema real.

18. Ao responder, nos termos em que o fez, aos ‘abutres notáveis’, corporizando a figura de mata--abutres (vide caricatura), LFV voltou a mostrar a sua conhecida falta de tolerância para com as críticas, comum a alguns políticos muito em voga e desde há muito ‘imagem de marca’ de um futebol que, em Portugal, a partir da cumplicidade da imprensa escrita desportiva, não admite o contraditório.

19. Quer dizer: se a oposição ataca Morais Sarmento e este tem toda a possibilidade de se defender e a oposição volta a atacar, havendo ainda hipóteses de contradita, no futebol os críticos (adeptos) são enxovalhados e as publicações que lhes dão voz ou notariedade chantageadas e coagidas (perguntem ao ex-dirigente do Benfica, João Carvalho, o que lhe aconteceu na semana passada).

20. Não me parece que haja condições para LFV e José Veiga coexistirem pacificamente, sobretudo numa fase em que é necessário alijar responsabilidades. Mas este era, à partida, um cenário previsível. Vieira começa a ser um problema para Veiga como Veiga já é um problema para Vieira.

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