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O egípcio foi o único escritor árabe a receber o prémio Nobel, morreu há poucos anos e conseguiu a proeza de ser odiado por Mubarak e pelos islamitas que tentaram matá-lo.

O livro é um hino desencantado aos sonhos, por volta de 1930, de uma nova geração de estudantes universitários (incluindo pobres e até mulheres) a um Egito livre da tutela britânica, aberto e tolerante. Como humanista, Mahfouz defendeu os acordos de paz de Sadat com Israel e solidarizou-se com Salman Rushdie contra a fatwa (condenação à morte) lançada pela teocracia iraniana. Reler Mahfouz é imperativo, mas se estivesse vivo o desespero seria maior que nunca face à tragédia das últimas semanas.

A realpolitik e os encantos do ouro negro marcam o cadastro das democracias ocidentais na relação com o mundo árabe. Durante décadas foram toleradas as arbitrariedades de ditadores laicos como Ben Ali, Mubarak e até Khadafi bem como as excentricidades ditas culturais dos monarcas feudais sauditas ou do Golfo (proibição de condução pelas mulheres, ou escravidão de imigrantes…).

A democracia foi considerada algo dificilmente conciliável com as altas temperaturas e corrigida por assassinato (Mossadegh no Irão em 1953) ou golpe de estado (Turquia) quando os resultados fossem inconvenientes para a geoestratégia ou para as cotações do petróleo.

A Primavera Árabe de 2011 foi um vendaval que pregou um susto aos especialistas em mundo árabe. O entusiasmo oficial não incluiu qualquer apoio económico semelhante ao que foi dado à Europa de Leste após a queda do muro de Berlim e proliferaram as reservas sobre a relação complexa entre Islão e democracia.

Morsi foi o primeiro chefe de Estado egípcio eleito democraticamente, cometeu erros graves mas não creio que tenha afetado mais as liberdades que o maccartismo. A tolerância com que foi recebido o golpe militar de julho dá todo o fulgor aos fundamentalismos irracionais

São trágicas as diferenças nas reações a limpezas forçadas de praças em Istambul e no Cairo. Não há Egito sem islamitas, coptas e elites laicas, mas a bota fardada já provou não ser a janela da liberdade.

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