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Francisco Moita Flores

Francisco Moita Flores

Professor universitário

Comércio de carne

19 de outubro de 2008 às 09:00

Portugal tem sentido este problema. São vários os portugueses que partem para um país estranho comprometidos com contratos ou promessas de trabalho que parecem ser a solução para as suas dificuldades para, de repente, se verem subjugados por organizações criminosas que os cativam, que os tratam como escravos, que não lhes pagam, que lhes condicionam a liberdade até, em alguns casos, à liberdade de movimentos. E, por mais que se iluda o problema com os números estatísticos, Portugal tem sido um mercado preferencial para estes negócios sórdidos.

Sabe-se aquilo que as máfias de Leste têm feito. Ou melhor, sabia-se, antes de se pulverizar a investigação criminal por várias polícias sem troca de informação e correlação de números. Sabe-se, ainda há pouco se viu, bandos de romenos e ucranianos, usados nas vindimas como trabalhadores sem direitos, sem condições, sem garantias de trabalho. Sabe-se como as mulheres brasileiras têm alimentado o negócio do sexo em larga escala, submetidas a senhores de alto coturno, que as distribuem no mercado português e espanhol como se se tratasse de caixotes de fruta. A tal ‘fruta’ que um conhecido processo judiciário tem celebrizado.

Sabe-se que o negócio pedófilo ganhou manhas que a internet dissimula na atracção e exploração de jovens. Sabe-se do trabalho infantil, da expropriação dos mais elementares direitos da criança. Sabe-se, até, que quando se negoceia em carne humana o dinheiro é a moeda de troca de uma economia clandestina que há muito caminha ao lado dos números oficiais.

Há muito tempo que se ilude o problema. Por essa mesma ilusão as estatísticas revelam que em Portugal há poucos casos participados de tráfico de seres humanos. Mas também se sabe que não é assim. E nem se deve atribuir aos serviços de fiscalização e de controlo a existência de tantas vidas clandestinas e em sofrimento. Elas são o produto mais acabado da própria ideologia que determina o Estado e os modelos de desenvolvimentos em que temos apostado com todos os riscos que inscrevem. Do consumo acelerado, da mão-de-obra barata, do prazer a qualquer preço sem cuidar os valores essenciais que afirmam a dignidade humana.

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