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Francisco Moita Flores

Francisco Moita Flores

Professor universitário

Construção da violência

07 de outubro de 2007 às 09:00

Há dois meses o ministro da Administração Interna, claramente enganado pela direcção da PSP, produzia um discurso na Assembleia da República onde defendia o brilho da sua polícia por ter parado um bando de assaltantes à mão armada que provocara grandes danos em Viana do Castelo. O efeito do discurso desvaneceu-se horas depois de a PJ informar que nenhuma quadrilha tinha sido presa e os bandidos estavam a monte. Rui Pereira espalhava-se sem motivo. Te-ve de engolir em seco e calar. Se fosse noutro país, quem lhe tivesse passado este tipo de informação, levando-o a mentir, ainda que de boa-fé, logo a seguir seria demitido. Quando a polícia, ou alguém que a representa, tem a desfaçatez de enganar o seu próprio ministro, o jogo está viciado.

Os ladrões acabaram por ser presos esta semana e a verdade é que a Comunicação social, embora noticiando o assunto, não conseguiu relacioná-lo com a gaffe do ministro. Não admira. O País continua ofuscado com o caso Maddie e tudo o resto, no que à violência ilegítima concerne, transforma-se em espuma que rapidamente cai no esquecimento.

É interessante este fenómeno. Sobretudo porque é revelador dos mecanismos de produção de notícias. Não fosse o caso da criança desaparecida, o conjunto de assaltos à mão armada que durante o Verão varreu o País tinha seguramente interpelado o poder no sentido de se compreender os dispositivos de controlo da violência. E é bom que se recorde que alguns destes roubos tiveram homicídios pelo meio, como foi o caso da bomba de combustível em Benavente. Se compulsarmos as notícias dos quatro maiores diários nacionais, ‘Correio da Manhã’, ‘JN’, ‘DN’ e ‘Público’ de Junho, Julho e Setembro, respeitantes à actividade criminal e à reacção policial, percebe-se que 72% do noticiário teve os acontecimentos do Ocean Club como epicentro.

É certo que muito deste noticiário integra a reacção às escolhas editoriais dos jornais ingleses acabando por haver estímulos recíprocos determinando que o assunto não abandone as prioridades na informação. No entanto, olhando os restantes acontecimentos criminais do mesmo trimestre claramente se percebe que a escolha do caso do Algarve suscita maior adesão por duas razões essenciais. A primeira prende-se com o fascínio do mistério. A segunda porque esse mistério envolve uma criança. Sendo perceptível que o mistério induz a admitir um acto violento, a verdade é que a violência explícita dos assaltos à mão armada não conseguiu atrair maior cobertura jornalística.

Ou seja, não é líquida a afirmação de senso comum que garante que o público leitor é seduzido pelas notícias de sangue, parecendo maior a predisposição para aderir a novelas de emoção e mistério. Conclusão que nos leva a uma constatação terrível: não é a violência, nem o crime, nem a polícia, possivelmente nem a política, que mobiliza os actores sociais, mas o gosto pela perplexidade e pelo desconhecido. Será uma boa notícia para os ficcionistas mas um péssimo indicador sobre a mobilização das atenções para os problemas reais do País.

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