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As nomeações de Fernando Gomes para a administração da Galp e a de Armando Vara para a da CGD geraram uma sinfonia de protestos indignados. Foram muitos os que discordaram daquelas deliberações, considerando-as desajustadas, quase ridículas, face ao que afirmavam ser a impreparação dos nomeados.

Conheço os dois, respeito-os, mas não me parece que seja necessário esgrimir argumentos curriculares para aceitar como normais essas nomeações. Todavia, face à polémica instalada e à opinião que tenho sobre o assunto, motiva-me, contra a corrente, entrar no debate.

É público que Fernando Gomes foi presidente da segunda câmara do País durante uma década, secretário de Estado da Habitação, ministro da Administração Interna e deputado Europeu. É sabido que Vara foi deputado à AR, secretário de Estado e, finalmente, ministro do núcleo duro liderante do Governo de Guterres. Nuns casos com poucos resultados elogiáveis, mas em outros com indesmentível sucesso.

Ao longo dos anos, com vantagem para a sua sanidade mental, os portugueses não olharam com atenção para as empresas participadas pelo Estado. Se o tivessem feito, teriam observado dezenas de nomes pomposos ligados a laxismo e a pavorosos resultados de gestão. Ter-se-iam, nomeadamente nos últimos anos, beliscado, para acreditarem que tanto medíocre tinha ascendido às responsabilidades e mordomias de tais cargos. Incluindo a Galp e a CGD.

Quando Vara ou Gomes ocuparam os cargos públicos referidos, não assisti a qualquer coro de indignação minimamente perceptível. Os indignados analistas, a tomar como pertinentes as críticas a que agora assistimos, seriam complacentes com a mediocrização da ocupação do aparelho de Estado ao mais alto nível, onde tudo se decide, e preocupam-se com a potencial queda da República face à nomeação de um dos 12 vogais de um conselho de administração.

Se qualquer dos dois tivesse sido nomeado presidente dos respectivos CA, estaríamos perante decisões manifestamente desajustadas. Aí sim, a preparação específica é incontornável. Mas com os diabos, pobre País onde um ex-ministro não tem condições para ser um vogal secundário do CA de qualquer empresa! É com certeza um País maravilha, com ‘overbooking’ de quadros exuberantemente capazes.

Nos últimos anos assistimos à promoção de vários jornalistas, que até então só tinham sido jornalistas e administradores de grandes grupos da área de comunicação social. Nunca vi ninguém suscitar dúvidas quanto à sua preparação para tais cargos. Ainda bem. Na maior parte dos casos, uma sólida experiência profissional aliada ao bom senso e à maturidade geraram uma nova e excelente classe de gestores. Seria decente que a tolerância e bom senso que permitiram que essas afirmações se concretizassem com tranquilidade, moderassem as insensatas críticas a que agora assistimos. Mais uma vez motivadas pelo lamentável maniqueísmo que faz de alguns seres sagrados e de outros eternos patinhos feios...

Nos casos em apreço, as críticas deviam ter incidido sobre a teimosia terceiro mundista de não deixar que administrações competentes levem até ao fim os mandatos e não de fazer tiro ao alvo a cidadãos cujo único crime foi o de, com mais ou menos competência, terem estado circunstancialmente disponíveis para servirem o Estado.

Era mais fácil e mais prudente assistir a esta hipocrisia calado. É com esse tipo de silêncios e omissões que se faz carreira em Portugal. Nunca a quis fazer assim e já sou demasiado velho para mudar. Cada vez gosto mais dos que, contra a cultura dominante, têm a coragem de dizerem sempre o que pensam. Contra tudo e contra todos, este tipo de postura acabará por prevalecer.

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