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Surpreendentemente, a existência de crucifixos em duas dezenas de escolas públicas deu origem a um debate aceso sobre a natureza laica do Estado e a separação entre o estadual e o religioso. Como se estivéssemos perante uma situação generalizada e como se houvesse um tentativa de confundir aquilo que pertence a césar e aquilo que é de Deus.

Quem ler alguma da argumentação publicada, nos últimos dias, pode até ficar com a ideia de que a Igreja pretende colocar crucifixos em todas as escolas públicas. O que não é o caso.

A natureza laica do Estado não oferece dúvidas; acontece que a nação, em si mesma, está longe de ser laica. Se uma escola, na sua autonomia, entender afixar um crucifixo é por considerar que uma tal decisão é pacífica na comunidade que serve e vai ao encontro do desejo local. O Estado não deve obrigar a afixar crucifixos, mas não vejo porque razão há-de mandá-los retirar, quando tal decisão contraria localmente as pessoas (as mesmas que o Estado representa).

A obsessão da neutralidade conduz-nos ao mito da escola “bacteriologicamente pura”, descontextualizada e purificada (por assim dizer) de valores e princípios que corram o risco de remeter para o universo cristão.

Quando, nalgumas matérias, os programas escolares favorecem avaliações do mundo e da vida flagrantemente contrárias às da Igreja, o Estado não está então a violar o mesmo princípio da neutralidade? Ou essa violação só se produz quando o Estado se limita a acolher os desejos de uma comunidade que gosta de rever, nos espaços públicos, a sua matriz cristã?

Quando, por exemplo, os dignitários da Igreja surgem em lugares de evidência em cerimónias públicas, não o fazem, seguramente, por desejo individual de protagonismo, mas sim pelo facto de serem expressamente convidados por responsáveis públicos que parecem reconhecer, desse modo, a matriz cristã das comunidades que dirigem. Se o Estado, em qualquer parte do mundo, pretender ignorar e fizer tábua rasa da matriz religiosa específica (seja ela qual for) da sociedade que representa, não está a ser laico, mas laicista. Não se trata de privilégios, mas de saber interpretar o sentimento da população de uma determinada zona ou região.

E não vale a pena confundir o debate, regressando ao estafado argumento da Concordata de 1940, apresentada como produto de uma perversa ligação entre a Igreja e o Estado Novo. Tal como ninguém pretende actualmente qualquer confusão obscura entre o Estado e a Igreja, também não se pode ignorar que a Concordata de 1940 foi duramente negociada, originando, na altura, enorme tensão entre a Igreja e Salazar.

Um mês depois de centenas de milhar de pessoas terem saído à rua para professar a sua Fé, durante o Congresso Internacional Para a Nova Evangelização, estamos, novamente, reduzidos a uma discussão empolada e recheada de propaganda. Porquê?

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