André Malraux disse que gostar de fazer turismo está para gostar de viajar como a prostituição está para o amor. Eu adoro viajar e detesto turismo. Aos grandes hotéis e resorts 5 estrelas prefiro uma pequena estalagem rústica no interior do Pantanal; aos cruzeiros de ‘plástico’ dos texanos nas Caraíbas, prefiro a simplicidade de uma pequena pensão 2 estrelas em Mikonos; ao exuberante safari queniano com champagne ao pequeno-almoço, prefiro mergulhar com uma caravana de Land Cruisers no inundado delta do Zambese; ao jantar selecto no Maxim’s prefiro o bacalhau na brasa de um restaurante português no subúrbio londrino de Stockwell. Nasci a gostar da simplicidade da aventura e do inesperado.
No meio destas ‘loucuras’ saborosas decidi fazer a viagem marítima de uma vida. 1500 milhas náuticas, num pequeno veleiro de 14 m, através da imensidão do centro do Pacíifico.
Percorrer as ilhas Marquesas, ir cheirar as florestas tropicais que haviam inspirado Gaugin, entender por que é Jacques Brel tinha, já roído pelo cancro, escolhido tão longínquas paragens para dialogar com a morte.
Para além da minha família, viajaram comigo um velho marinheiro francês, uma francesa, quarentona, professora de Arte no Taihti, e um casal ‘gay’ de Santa Mónica. Dois personagens fantásticos. O John, professor de Teatro, especializado em Shakespeare, que tinha sido ‘só’ professor de DiCaprio e de Denzel Washington e, nas horas vagas, consultor preferencial de Anthony Hopkins. O Paul, criativo da Nike, tinha acabado de saltar para o estrelato com o ‘Just do It’, um dos anúncios publicitários mais bem conseguidos dos últimos anos.
Em 14 dias de mar redescobri que o Paraíso ainda existe. Navegar no meio de um luar de prata, com ondas de quatro metros, no coração do Pacífico; jantar peixe cru, ‘chez Madame Régine’, na única casa digna desse nome, na ilha de Nuku Iva; rezar sobre a campa rasa de Brel sobre o centro da pequena urbe de Hiva Oa; acordar com o ruído de dezenas de golfinhos a chapinhar à volta do nosso pequeno barco; chegar ao pôr- -do-sol ao pequeno porto de Bird lsland ou ficar parado na praia a assistir ao domingo à tarde de jogo de cartas das viciadas mulheres das ilhas, equivale a dez anos de rotina intelectualóide, de cocktails e palestras estereotipadas de tecnocratas sem alma e sem mundo.
Como tenho pena deles. Pobres diabos. Nem a sua arrogância, nem as suas fortunas, nem os fins-de-semana ajanotados no novo riquista monte comprado no bonito Alentejo lhes dá acesso à felicidade das coisas singelas que nunca compreenderão.
Percebi o que já havia começado a entender a dormir ao relento nas praias desertas do Litoral imenso do desconhecido Maranhão, nos mergulhos sem fim nas cidades submersas do Litoral Sul da Turquia, nas conversas tranquilas de fim de tarde com os religiosos em formação nos templos budistas da floresta do triângulo dourado, no Norte das florestas tailandesas ou, nas noites de adolescente inquieto, ao som do uivar dos lobos, nos abrigos de pastor do Vidoal, lá bem nos confins do Gerês. Percebi então que falar com Deus é fácil e simples. Basta olhar bem para o mundo e, principalmente, deixá-lo olhar-nos nos olhos.
Este ano, se tudo correr como previsto, irei, com o meu amigo Amorim Pereira, ao alto do Monte Branco. Sei que é uma pequena cedência ao turismo fotográfico nipónico, mas com os diabos, é o máximo que posso fazer para entender a melancolia dos condenados aos tais fins-de-semana apinocados. Compreendendo-os terei ainda mais comiseração cristã sempre que me procurarem irritar.
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