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Tive oportunidade de observar já que as audições na Comissão de Ética vão ser um desfile interminável de gente, a maioria das quais sem qualquer relevância para a análise concreta das questões. Parece-me óbvia a preocupação de ganhar tempo e estender as sessões de forma a que as conclusões, se as houver, surjam o mais tarde possível e o seu impacto se reduza.

Até li nos jornais, entretanto, que, para interpretar a situação actual, há quem queira regressar ao passado, fazendo mesmo uma incursão aos anos em que eu estive na RTP. Terei todo o gosto em revisitar essa época, embora não consiga entender como para o apuramento da verdade do que agora aconteceu se torne necessário recuar vinte ou trinta anos. É o mesmo que, para ir do Parlamento ao Marquês de Pombal, seja necessário apanhar primeiro o comboio para Madrid... Trata-se de mais uma originalidade portuguesa, típica de quem aprecia o lançamento de cortinas de fumo sobre assuntos incómodos. Mas, como memória é uma coisa que faço questão de preservar, se questionado, darei a minha contribuição para que se tornem claros momentos que figuram com relevância na História da RTP e das suas relações com o Poder, bem como o que significou o esforço de tentar aplicar no jornalismo daquela empresa os princípios que me foram transmitidos e as dinâmicas que permitiram dotá-la dos instrumentos e dos profissionais adequados a que, antes da chegada dos operadores privados, o serviço público de televisão tivesse a sua oferta informativa alinhada com novos padrões, novos critérios e novas práticas.

Pela minha parte, não haverá problemas, obviamente, em recordar os percursos conturbados da Informação da RTP, as vicissitudes por que passou, os erros e avanços verificados, com o espírito aberto à análise crítica que a boa convivência democrática pressupõe. Tentarei lançar luz sobre o que foram as formas de actuar dos diversos governos, sem restrições nem medos. Dos tempos de Manuel Alegre à frente da Comunicação Social aos de Proença de Carvalho, de Arons de Carvalho a Marques Mendes, de Mário Soares a Cavaco Silva, de António Guterres a José Sócrates. Poderemos abordar épocas tão distintas como foram as da RTP presidida por Edmundo Pedro ou Coelho Ribeiro, por João Soares Louro ou João da Palma Ferreira. Obviamente, terei também disponibilidade para falar sobre os afastamentos de que fui alvo por executivos socialistas e do bloco central, bem como sobre as formas como as críticas que os sustentaram deram lugar aos elogios que, contraditoriamente, as substituíram e levaram quem me saneou a convidar para regressar ao comando da RTP, em fases muito diferentes, a última das quais pela mão de um dos arguidos da ‘Face Oculta’ que tão desprimorosos comentários agora liberta sobre a minha pessoa e com o envolvimento empenhado de um conhecido dirigente socialista muito ligado a estas áreas.

Orgulho-me do meu passado, do que consegui fazer e daquilo que espero o futuro ainda me permita pôr de pé. Não me preocupa que o meu curriculum não assinale grandes amizades com políticos e que os dedos de uma só mão cheguem e sobrem para as abarcar. Portanto, lá estarei na Assembleia para colaborar, de peito aberto às balas que alguém queira disparar, nestes tempos de autêntico vale tudo.

Entrei para o jornalismo em Dezembro de 1972, ainda estudante do curso de Filologia Germânica, da Faculdade de Letras de Lisboa. Tive a felicidade de conviver e aprender com grandes profissionais da Informação, reconhecidos pela sua independência, seriedade , mérito e integridade. Jacinto Baptista, José de Freitas, Urbano Carrasco, Bernardino Coelho, Baptista Bastos, Ângelo Granja, Dinis de Abreu, Abel Pereira, Acácio Barradas, Botelho da Silva e vários outros, com a humildade que só os grandes vultos transportam, foram mestres e companheiros atentos, não se esquivando, entre apoios e críticas, a orientar um jovem no complexo e espinhoso exercício de domar e usar a palavra para relatar a vida e interpretar a realidade. Não me esqueço deles nem dos seus conselhos, mesmo quando, ainda hoje, surgem comentários que considero injustos, como ainda em data recente aconteceu com um que se esqueceu que, há uns anos, estando eu em plena actividade televisiva, me veio desafiar para regressar ao jornal onde nasci, na fase crítica que a publicação atravessava, por, supostamente, ser a única pessoa capaz de o salvar. O que interessa é aquilo em que verdadeiramente acreditamos e os valores que defendemos. O resto é irrelevante. Por muito que nos ataquem ou possam magoar. 

* A propósito das audições parlamentares, o CM convidou José Eduardo Moniz a tomar posição em texto de opinião. 

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