Ficámos a saber que a recessão vai ser o dobro do previsto, que o desemprego vai aumentar ainda mais, que o Orçamento de Estado tem de ser revisto, que o Governo quer mais um ano para reduzir o défice e que parece estar finalmente empenhado em definir uma política económica. Apesar da importância destes assuntos, o que mais deve ter ficado na mente dos portugueses foi o ‘Grândola, Vila Morena' trauteado por meia dúzia de gatos-pingados, com o objectivo de perturbar sessões em que participavam governantes. Este contraste entre o que é realmente importante e o que é meramente mediático não valoriza a nossa democracia. Pelo contrário, empobrece-a. É um mau sinal dos tempos que vivemos.
Primeiro, vivemos um tempo de prioridades invertidas. É manifesto que os factos económicos e sociais divulgados na semana passada são bem mais importantes para os cidadãos que o pindérico protesto dos indignados. Apesar disso, a relevância mediática conferida a uns e a outros é manifestamente desproporcionada. Os media, e em particular as televisões, preferem o sensacionalismo do espectáculo à importância factual dos acontecimentos. Tudo isto pode ser mediaticamente explicado, mas não deixa de ser substancialmente deprimente. Segundo, vivemos no tempo da superficialidade. Se os políticos preferem a táctica à estratégia, a forma ao conteúdo, o sound-byte à análise séria dos temas, não admira que os cidadãos e as televisões sigam as mesmas pisadas. Se de cima vem um mau exemplo, é natural que a contaminação faça o seu percurso. Finalmente, o défice de cidadania. Este é o País em que os cidadãos pedem seriedade na política, mas depois votam em políticos corruptos; esta é a sociedade que afirma querer ser adulta e responsável, mas depois acaba sempre a pedir mais direitos e nunca os correlativos deveres; esta é a nação que, apesar de uma longa história, teima em não aprender com os erros. Porque prefere a ilusão à verdade, esteve, nos últimos 30 anos, três vezes ao pé da bancarrota. Com este clima, não admira que o País viva de pernas para o ar. É pena, mas é verdade.
Texto escrito com a antiga grafia
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Por Carlos Rodrigues
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