Parei a olhar para o programa ‘Ídolos’. Sempre é melhor ver jovens esganiçando-se, hoje, do que esperar por amanhã para ver marretas fanados tentando uma segunda oportunidade na vida com fardos de feno e tetas de vaca.
‘Ídolos’, pois. À primeira vista chocou-me a crueldade. Quatro membros de um júri – gente do meio: uma radialista que conhece o efeito das pálpebras levantando-se quando se tem olhos bonitos (é o caso), um madeirense expatriado que já falou com a Madonna, um bruto local e um Tercero Galarza – escolhem os jovens que passam à fase seguinte. A escolha é decisiva: “sim, ficas” ou “vai-te embora” são as hipóteses. Únicas. Já de si essa alternativa seca choca com os brandos costumes. Eu estava à espera da nossa tradicional proposta intermediária: “Vai para casa que a gente logo te manda uma respostazinha.” Mas, ali, não: é sim ou sopas.
Acresce que o sopas é, além de ser dito, dito de forma como nós nunca usamos. Um português a quem o cozinheiro pergunta se o bife duro estava bom, diz: “Sim, sim, eu é que não estou com muito apetite.” Enfim, pegamos sempre de cernelha. Não usamos dizer de caras: “Não.” E, sobretudo, não o dizemos com a justificação devida: “Olhe que ir para as obras ajuda a descobrir muita vocação, veja o Obikwelu…”
Nos ‘Ídolos’ fala-se como em Portugal não se fala e se deveria falar com quem pretende ser alguma coisa. Com rudeza. Ali, um jovem com voz como a minha fica a saber aquilo que eu, tipo sensato, sempre soube: se gosto de música, calo-me e compro um disco. E o que à primeira vista me pareceu crueldade começou a revelar-se uma virtude. Uma rapariga que distribuía pão e cantava sem afinação, foi convidada a continuar a enfarinhar-se em vez de sonhar ser protagonista do filme de horror ‘Romana, ‘Part Two’. Ficaram as ganhar os nossos ouvidos, e talvez fique a ganhar o pão em Portugal, quem sabe? Depois de dezenas de anos a tentar-se convencer os jovens portugueses que todos podem ser doutores – ou membros de uma ‘boys band’, é igual –, enfim, temos conselheiros profissionais como deve ser.
Ary Barroso, pai de ‘Aquarela do Brasil’, samba do Carnaval de 1939 que dura até hoje, tinha um programa, Calouros em Desfile, nos anos 50, em que fazia gala de aterrorizar os candidatos a cantor. A coisa partia de um pressuposto justo: quem quer ser cantor popular tem de ter tomates. Um dia apareceu-lhe uma rapariga do morro, magricela, feia e vestida com vestido de vizinha mais gorda. Ary: “Mas de que planeta você veio?” E ela:
“Planeta fome, sô Ary”. Depois, Elza Soares encantou com uma voz que, 50 anos depois, ainda a torna a maior cantora de samba de sempre. Mas tudo começou ali, quando ela mostrou carácter. Não estou, pois, contra a crueldade do júri dos ‘Ídolos’. Tenho é pena que em Portugal os candidatos ao jornalismo e à política, dois de muitos exemplos possíveis, não sejam escolhidos da mesma forma.
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