Nos primeiros sete meses deste ano, aqueles crimes baixaram a fasquia das setecentas participações e no que respeita a carteiras a coisa desceu três por cento. Por estes dados, concluem os servos da estatística, o crime nestes domínios está a decrescer. Logo, não se pode concluir que exista uma relação directa entre a agudização da crise, os seus efeitos no poder de compra dos cidadãos e estes tipos de furto.
Compreendo a conclusão policial e, no essencial, até estamos de acordo, mas duvido seriamente do grau de credibilidade das estatísticas criminais. E não se deve concluir que escrevo que a Polícia está a mentir. Pelo contrário. Apresenta a verdade que lhe é apresentada, ou seja, os números da criminalidade que chega ao seu conhecimento. Ora, neste género de crime, pequenos furtos, subtracção de carteiras, furtos por descuido, qualquer estudioso das flutuações da actividade criminosa confronta-se com o maior dos pesadelos, ou seja, um palavrão conhecido pelos investigadores destas matérias por cifra negra. O que é a cifra negra? É a diferença entre a criminalidade real, aquela que aconteceu, que produziu vítimas, e a criminalidade participada às autoridades policiais.
Chama-se cifra negra por ser um número desconhecido ao qual nos podemos aproximar por outras vias, nomeadamente por inquéritos de vitimização, mas que a estatística não revela e esconde de forma implacável. Dou um exemplo para ser mais claro.
Quando nos finais dos anos oitenta as várias polícias, devido à crescente incorporação de mulheres, canalizou agentes do sexo feminino para receber e investigar crimes de violação, houve um disparo estatístico deste tipo de crime. Terão subido as violações tão repentinamente? Foi o facto de se alterar o comportamento policial que criou condições para que mais mulheres vítimas falassem sobre experiências traumáticas com mulheres polícias. Tal atitude contribuiu para baixar esta cifra negra.
Quanto a ladrões e carteiristas, desconfio que a estatística engana quem nela acredita. E revela outra face mais perversa: é que os números, pese o rigor, não são politicamente neutros. Aceites com fé e sem reserva, podem conduzir a grandes erros no futuro e, como diz o povo, cautelas e caldos de galinha não fazem mal a ninguém.
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Por Carlos Rodrigues
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Somos dos países mais seguros. Porquê? Porque somos dos mais subdesenvolvidos.