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Mais uma vez realiza-se na capital portuguesa, na sede da Fundação Gulbenkian, o Colóquio sobre Machado de Assis, este ano o IX da série, por iniciativa do Clube Machado de Assis a que preside a escritora e jornalista de São Paulo D. Mariazinha Congílio, grande dama das letras brasileiras e paulistas. O objectivo é o de tornar mais conhecida em terras lusitanas a obra do maior prosador brasileiro de todos os tempos, co-fundador, juntamente com Lúcio de Mendonça, em 1897, da Academia Brasileira de Letras.

Manazinha Congílio e o autor destas linhas, seu imediato, conquistaram para essa causa de acentuada significação luso-brasileira a colaboração eficaz e valiosa de Gil Magno Cancela Leite, director da Universitária Editora que nos últimos anos já publicou todos os romances de Machado de Assis, da primeira como da segunda fase, escritos entre 1872 e 1908, ano de seu falecimento.

Hoje, Machado de Assis está nas prateleiras das livrarias em Portugal como nunca esteve. São nove romances de Machado (1839 - 1908), de Ressurreição, em 1972, do qual o ciúme foi o tema principal, até Memorial de Ayres, em 1908, sobre memórias fictícias e verdadeiras. Todas essas obras, especialmente as cinco últimas – Memórias Póstumas de Bráz Cubas (1881), Quíncas Borba (1891), Dom Casmurro (1899), Esaú e Jacô (1904) e Memorial de Ayres – são de extraordinário valor literário e representam papel de grande relevância nas letras luso-brasileiras. Não são textos maçudos ou extensos, de modo geral são romances curtos, mas profundamente densos, de admirável beleza literária – monumento à língua portuguesa pela correcção, riqueza e despojamento de sua composição, de sua narrativa e de seu estilo.

Quando Machado de Assis nascia no Rio de Janeiro, em 1839, José de Alencar, que vira a luz em Messejana, no Ceará, já contava dez anos de idade e apontava para um futuro brilhante, que viria a constituir a expressão máxima do romantismo brasileiro, pelo ângulo de exaltação dos valores ‘indianistas’ que marcavam presença do elemento indígena, brasílico, isto é, valores que exaltavam o elemento humano que povoava o Brasil antes da chegada dos Portugueses em 1500.

A figura de José de Alencar foi recentemente reavivada nos seus traços românticos e ‘indianistas‘ pelo lançamento de edição fac-similada da primeira versão do romance Iracema, datado de 1865 e publicado no Rio de Janeiro por Viana & Filho. Essa reedição fac-similada da príncipe, magnificamente apresentada na Galeria Oboé de Fortaleza por Beatriz Alcântara, escritora portuguesa e brasileira, Primeira Dama do Ceará, foi motivo de orgulho para os cearenses porque, como acentuou Beatriz, a produção literária romântica brasileira, ainda que se tenha orientado pelos mesmos postulados estéticos da escola romântica europeia, adquiriu contornos extremamente próprios e renovadores, tendo-se a eles adicionado o projecto de construção de uma identidade nacional.

Assinala Beatriz Alcântara a importância do artigo que Machado de Assis publicou no Diário do Rio de Janeiro, a 23 de Janeiro de 1866, sobre José de Alencar e Iracema. O texto do grande prosador carioca tem períodos ditirâmbicos e eu citaria o final do seu comentário quando diz que “o livro de José de Alencar é fruto do estudo e da meditação, escrito com sentimento e consciência. Quem lê uma vez, voltará muitas mais a ele, para ouvir em sua linguagem animada e sentida a história melancólica da virgem dos lábios de mel. Há-de viver este livro que tem em si as forças que resistem ao tempo, e dão plena fiança do futuro. É também um modelo para o cultivo da poesia americana, que, mercê de Deus, há-de avigorar-se com obras de tão superior quilate”. (...) O futuro chamar-lhe-á obra-prima”. Em Portugal, Hernâni Cidade tem este conceito; “O estilo de J. de A. é uma das mais importantes contribuições de sua obra à literatura do Brasil”.

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