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Eugénio Onegin, personagem do romance em verso que dá o título à obra, de autoria do imortal poeta russo Aleksandr Pushkin, escrito entre 1823 e 1831, vai no começo da história residir numa linda propriedade no campo, ao sul de Petersburgo. Instalado na propriedade, herdada do tio, moderno e renovador que era de espírito, resolveu mudar várias coisas. Uma delas foi reduzir ou suprimir o peso dos impostos que lhe pagavam os camponeses da gleba.

Com estas e outras atitudes, chocava os latifundiários vizinhos, conservadores, com os quais Eugénio não queria maiores conversas. Os vizinhos criticavam-no como excêntrico, por beber vinho tinto em copo, hábito não russo, não beijava a mão às senhoras. E acrescentavam que "devia ser um Franco-Maçon", como que dizendo muito ou tudo do fogoso personagem, amor de Tatiana.

Era admissível que por aquela época, começo do século XIX, na imensidão daquela nação eurásica, já fosse conhecida a maçonaria? Se um escritor como Pushkin a ela aludia, mesmo em ficção, era, porque ela já existia no conhecimento de russos brancos e ortodoxos que compunham a paisagem rural de Mihaylóvskoe.

Testemunhei a apresentação pela editora Hugin, em Lisboa, do livro ‘Maçonaria Regular - Maçonaria Universal’, de autoria de José Manuel Anes, Grão-Mestre da Grande Loja Legal de Portugal. Assunto tradicionalmente secreto, tratado nos silenciosos arcanos de uma vida que tinha algumas semelhanças com a de monges num convento em suas celebrações ou nos seus cânticos de miserere, é agora aberto ao conhecimento do público, pelo menos em boa parte.

Há alguns meses passados, a sede da maçonaria na Rua do Grémio Lusitano, no Bairro Alto (sítio de valor queiroziano) de Lisboa, foi aberto e mostrado à imprensa. Agora o livro de José Manuel Anes explica o que se entende por Franco-Maçonaria: uma Ordem de "tipo artesanal", que terá passado de operativa a especulativa, progressivamente, ao longo do século XVII e começo do XVIll, na Escócia e em Inglaterra, estendendo-se rapidamente ao Velho Continente e ao Novo Mundo. Maçon escreve-se em francês tal qual em português; em inglês ‘mason’; em alemão ‘freimaurer’; em russo, no texto de Pushkin, ‘farmazon’.

A história dos movimentos liberais no Ocidente tem muito que ver com a Maçonaria. No Brasil, o príncipe regente D. Pedro era um maçónico e um liberal e foi nessas condições que voltou a Portugal depois de ter abdicado da coroa brasileira, em 1831, para lutar contra o irmão católico e absolutista. Assim, foi muito natural que por todo o século XVIII a Maçonaria conquistasse terrenos em todos os quadrantes da Europa, Rússia inclusive.

"Por Ordem Iniciática" deve-se entender uma organização fraternal, com uma Regra de funcionamento e de vida sujeita a uma hierarquia, a uma Ordem, cujo objectivo é o aprimoramento espiritual dos seus membros, através da progressão iniciática.

Os rituais que a Maçonaria pratica são inspirados no simbolismo dos artesãos construtores.Os maçons medievais construíam edifícios (catedrais) à Glória de Deus, o Grande Arquitecto do Universo. Os maçons especulativos constroem o "seu edifício", que são eles próprios -- a construção incessante do maçon que, a partir do profano, bateu à porta da Ordem. Eles constroem também o "edifício" social, isto é, a Sociedade Humana. Essa construção dá-se sob a égide e inspiração de princípios éticos e espirituais decorrentes do Princípio dos princípios, que é o Grande Arquitecto do Universo, que pode ser o Deus das religiões reveladas como o cristianismo, o judaísmo, etc., mas também um Princípio espiritual supremo. Ser maçon não é ser religioso, obrigatoriamente praticante de uma religião revelada, mas tem de ser obrigatoriamente um crente nesse Princípio superior simbolizado pela já mencionada expressão: "Grande Arquitecto do Universo".

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