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Terminou a revolução copernicana na TV – já podemos admitir, que como a Terra de Galileu, ela gira – e é gira. Em Junho, foi emitido nos EUA o epílogo da sexta e última temporada de ‘Os Sopranos’. Cá, o canal Hollywood requenta a quarta temporada, e a RTP 2 equaciona o fecho de ouro. O desenlace da saga dos mafiosos de Nova Jérsia está na calha para 15 Emmy, o Óscar da TV (16 de Setembro). Entre eles, o de melhor folhetim dramático, melhor actor (James Gandolfini) e melhor actriz (Edie Falco). Percebemos que uma ficção saltou de entretenimento para marco cultural quando formadores de opinião comparam as suas personagens com líderes tridimensionais. A ‘Time’ contrastou, na capa, os seis anos de Bush com as seis sagas de Tony Soprano. E Maureen Dowd, analista política do ‘New York Times’, ridicularizou a paródia de Hillary Clinton ao último episódio da série, em que Carmela (Edie Falco) se resigna aos palitos que o marido lhe põe em troca de jóias. Dowd pergunta: e Hillary fez o quê em troca da Casa Branca?

Basta evocar o pontapé de saída da melhor série de sempre: Tony, ‘capo’ dos mafiosos de Nova Jérsia, sofre um acesso de cagaço metafísico depois que uma plácida família de patos pousa na sua piscina. E tomba num divã psicanalítico. Os protagonistas têm mais cambiantes que uma aurora boreal. Tony tenta crer que não passa de um ‘empresário’ – mas é difícil. Menos difícil é aceitar a humanidade deste monstro. O eixo da série não é a violência (carnificinas a rodos). Nem o filistinismo suburbano (julgam que Don Perignon é um mafioso francês, e que Volvo é uma parte da anatomia feminina). O tema é a angústia dilacerante das personagens, que partilham a amargura e os anseios dos mais inócuos mortais. Por exemplo, pagar a faculdade dos filhos, ou achar uma solução para um casório no qual marido e mulher se odeiam (é como se Pinto da Costa e Luís Filipe Vieira dormissem na mesma cama). Daí a inquietante identificação que estes demónios suscitam: reina neles a truculência e o rancor, mas também a fragilidade, a insegurança e o medo. Somos nós, só que em escala macarrónica (esses italianos…).

‘Os Sopranos’ fixou um novo cânone. Os 86 episódios correspondem a um filme de 72 horas de duração – um filme mais brilhante do que qualquer coisa que Hollywood produziu no mesmo período. Dizem que a morte é uma das piores coisas que podem acontecer a um mafioso – por isso eles preferem pagar uma multa... No caso de ‘Os Sopranos’, fazemos questão de quitar esta multa, contentes da vida. É que para nós, espectadores, estes crimes compensam.

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