Em 1971, nasceu, carioca de feitio, um dos mais inspirados criadores de uma vaga que só recentemente encontrou continuadores e ‘extensores’: Ed Motta. Que começa por ser um homem de extremo bom gosto, mesmo quando fazemos uma pausa na música: ‘gourmet’ e apreciador de vinhos, julgo ter sido ele o inventor do verbo ‘barcavelhar’ para contemplar o nosso Barca Velha. Como não são essas (respeitáveis) qualidades que vêm ao caso, falemos de música e aí posso afiançar que este gigante é uma enciclopédia ambulante, ouviu tudo, reconhece os mais obscuros compatriotas, adoptou o samba e o ‘soul’, aperfeiçoando a herança recolhida do tio, Tim Maia.
Tem 32 anos, mas já é um veterano: o primeiro disco foi lançado ainda na menoridade (1988), mas já com o caminho desenhado. Daí para cá, ‘foi a todas’ desde ‘Um Contrato Com Deus’ (1990) ao álbum que agora o traz de volta ao formato canção, ‘Poptical’ (ed. Universal), e que é mais um monumento de balanço e de bom gosto, voltando a exibir a voz grave e sem idade, depois da aventura pró-instrumental de ‘Dwitza’ (2001), também séria candidata ao estatuto de obra-prima. Ed compõe, produz, arranja, toca (sobretudo teclados, mas também guitarra, percussão e o que mais lhe aprouver), canta com a segurança dos inspirados.
Junta a isso uma escolha múltipla mas nivelada bem por cima dos parceiros. Veja-se ‘Poptical’: o tom é dado por ‘Minha Casa, Minha Cama, Minha Mesa’, samba-jazz com a marca de… João Donato, letra de Nelsinho Motta; o funko entra em cena logo a seguir, que ‘Tem Espaço Na Van’, texto de Seu Jorge, outro dos faróis contemporâneos; Adriana Calcanhotto escreveu ‘Eu Avisei’, pop em estado quase puro, não fossem as marcações jazzísticas, acentuadas na balada ‘The Rose That Came To Bloom’, letra (em inglês) de ‘Bluey’, líder dos saudosos britânicos Incógnito; Daniel Carlomagno e Ivan Carvalho assinam respectivamente ‘Que Bom Voltar’ e ‘Coincidência’, outra vez o ‘swing’ fácil a dar cartas e a fazer bater o pé; já ninguém se espanta com a valsa tropical de ‘Rainbow’s End’, letra de Ronaldo Bastos, exercício de bom gosto e de sonho, um ‘standard’ imediato; Jairzinho Oliveira marca presença em ‘Pra Se Lembrar’, com uso e abuso da electrónica deliberadamente ‘démodé’; ‘jazz’ marcado em ‘My Rules’, letra de Fábio Luiz, e ‘swing’ lento e envolvente em ‘Fox do Detetive’, letra de Chico Amaral’ abrem a porta para o maior dos mergulhos ‘soul’, ‘Gifts and Sorrows’, letra de Blake Amos; o fecho é com poema de Zélia Duncan, ‘Quem Pode Surpreender?’, onde os aromas deixam perceber um tango magnético e outros perfumes latinos. Pergunto: era possível querer mais?
Era e há: Ed Motta estará ao vivo em Portugal, estreia para concertos a sério: dia 5 (sexta), no Paradise Garage de Lisboa, e dia 6 (sábado), no Hard Club, de Gaia. Para isto e muito mais, que o rapaz não é parco nem parvo na escolha dos seus excessos. São duas festas de arromba, para tirar Ed Motta da sombra. É que ele, manifestamente, com manifestos como este, não cabe lá dentro.
Outro par de concertos que gera a melhor das expectativas, até porque o ‘jazz’ costuma ser ainda mais arte em palco, diz respeito ao único nome português (salvo erro) até hoje editado pela insuspeita Blue Note: JACINTA. Amanhã, segunda, dia 1, no Rivoli, Porto; no dia seguinte, no Centro Cultural de Belém. São ocasiões para se avaliar do crescimento de uma voz, que certamente brindará entusiastas e curiosos com mais do que se ouviu no CD ‘Tribute To Bessie Smith’ (ed. EMI-VC). A não perder.
Deixai vir a mim a nostalgia: ando a ouvir com entusiasmo a colecção ‘Ondas Luisianas’ (ed. Universal), carregadinho de canções dos anos 80. Umas mais perenes, outras perdidas no tempo, todas recordadas ‘à sombra’ de LUÍS FILIPE BARROS, um homem que marcou a rádio em Portugal e que ajudou a fabricar muito mais êxitos do que seria possível encaixar num duplo CD. Só faltam uns dados biográficos do figurão para se perceber cabalmente este pedaço de boas histórias e memórias. É só deixar correr…
Será o menos monótono e bocejante dos discos de Natal, tendo em conta o currículo e a ‘performance’ de quem o assina: o grupo VOZES DA RÁDIO. Mas, confesso, há por aqui uma pouco secreta embirração com estes registos temáticos sazonais, extensível ao que aturamos no Carnaval. Neste caso, em ‘Natal’ (ed. Zona Música) aquilo custa ver o talento e o rigor destas cinco vozes entregues a um género que não tem volta a dar. Salvam-se os quatro originais, até pelo humor, não se safa o conjunto. Pena!
Percebe-se que a pequena queira deixar a imagem de ‘teen idol’ e crescer. Mas passar de virgem cândida a desvairada cultora do sexo, não será exactamente uma transição pacífica. BRITNEY SPEARS gostava mesmo de ser Madonna. Mas ‘In The Zone’ (ed. BMG) fica a meio caminho, sem canções que sustentem a reviravolta. Escapam ‘Me Against The Music’ (com Madonna) e ‘Early Morning’, em que se sente a mão mágica de Moby. O resto é apenas pífio. Será que a jovem resiste e que o público vai atrás dela?
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Por Carlos Rodrigues
Enquanto o COI impedia homens biológicos de baterem em mulheres, por cá a gente entreteve-se com uma pseudo-traição na ‘Secret Story’ e a bolha mediática acha mal José Luís Carneiro pressionar pela libertação de presos políticos.
Ninguém pedia que a Europa marchasse com Israel e os EUA para o Irão.
Não parecendo uma pessoa extrovertida, o Papa Leão XIV transmite algo de ternurento e carinhoso.
É caso para temer que seja mais do mesmo.
Hoje, o desafio não é reescrever o texto constitucional, mas cumprir o seu espírito.