No entanto, esta canadiana, que já dobrou os 15 anos de carreira, ultrapassou, ainda antes da 'contabilidade' do álbum presente e em questão, 'Afterglow' (ed. BMG) ultrapassou a impressionante fasquia dos 25 milhões de cópias vendidas desde que se estreou com 'Touch', em 1988. Além disso, fundou o movimento Lilith Fair, que já deu direito a disco e tudo, e que representa uma versão moderna e 'civilizada' (chamemos-lhe assim, por mera conveniência) do feminismo, ao menos no mundo das canções. Só para remate das iniciativas, há uma parte dos lucros do seu trabalho que Sarah reserva a outra organização que fundou, a Music Outreach, e que consiste em proporcionar a crianças urbanas a frequência gratuita de uma escola de educação musical, contrariando os cortes orçamentais dos governos canadianos na matéria. Pelo caminho, levou para casa nada menos de três Grammies e está nomeada para a hipótese de um quarto, com decisão a 8 de Fevereiro próximo.
Confesso que excelentes intenções e melhores percursos à parte, esta multiplicação dos bens não me impressionaria por aí além, caso esta mulher não fosse um dos casos mais impressionantes de coerência, lirismo, inquietação e profundidade nas 'cantigas' que reconheço nos dias de hoje. De quando em vez, é-me indispensável (da mesma forma que regresso a Joni Mitchell, June Tabor, Kate Bush, Tori Amos e outras senhoras) voltar a discos como 'Fumbling Towards Ecstasy' ou 'Surfacing', espelhos de uma alma que não precisa de truques tecnológicos nem de escândalos psicológicos para conseguir o mais difícil dos brilhos: aquele que só alcançam os que vêm da sombra e não a temem, que não se põem em bicos de pés, que não precisam de entrevistas polémicas para fazer vingar as respectivas canções.
Sarah McLachlan é uma mulher absolutamente normal, na aparência e no seu posicionamento no universo musical. Mas, reconheço, já precisava deste reencontro com as suas dúvidas e angústias, com os seus mínimos e imensos prazeres, com as suas histórias de fúrias contidas e de desgostos expostos, tudo matérias em que podia dar aulas. E há já meia dúzia de anos se aguardavam estas 'novas', capazes aqui de abrir hostilidades com um 'riff' de guitarra rasgado e quase obsessivo para, mais adiante, cederem aos cânticos quase celestiais e aos arranjos planantes que (também) são uma das suas imagens de marca. Pelo meio, um disco ao vivo ('Mirrorball') e outro de remisturas ('Remixed') não chegaram para apaziguar as saudades.
Agora, em dez canções controversas – a crítica está longe de ser unânime face a 'Afterglow' –, tudo se recoloca exactamente onde deve. Sarah tornou-se, neste processo, órfã e mãe, com apenas cinco meses de intervalo. Terão sido mais do que esses factos a atirá-la (de vez?) para os encantos do piano, onde foram compostos os temas do álbum. Mas, mais uma vez, aí está um disco de vivências, em que o prazer não esconde as dores de perda e as 'dores de parto'. Elegante mas sem exageros maneiristas, superiormente cantado e tocado (mais de meia dúzia de guitarristas, o reencontro com veteranos como Tony Levin e Jerry Marotta), é um daqueles álbuns que vai ajudar a aquecer Invernos e prolongar noites de retiro. Por mim, não lhe peço mais do que isso. Sabendo que isso é mais que muito.
O pai, primeiro. É uma colectânea, não há enganos. Mas, entre os grandes do Brasil, GILBERTO GIL tende a ser o menos exposto. Em 'Warner - 25 anos' (ed. Warner), série que abrange muitos e bons, não podia faltar o Sr. Ministro da Cultura. São 14 canções, gravadas entre 1976 ('Refazenda') e 2000 ('Esperando na Janela'), todas de primeira água – 'Drão', 'Realce', 'Super-Homem', 'Se Eu Quiser Falar Com Deus', até as versões de Marley e Stevie Wonder. Uma lição. E ele é um dos eternos modernos…
Depois, a filha. PRETA GIL estreia-se, com cadência certa e gosto próprio, em 'Prêt-À Porter' (ed. Warner). A voz é segura, o lado erótico do encarte ajudou a 'badalar' o lançamento. Mas não é o essencial: as colaborações com os filhos de Moraes Moreira, Baby Consuelo e Pepeu Gomes, Paulinho Boca de Cantor, dão azo a um disco que aposta no 'swing' e no samba sem carregar de mais. Boa matéria-prima e uma voz que, já em crescimento, dá óptimas respostas. Quase tudo originais, ainda por cima.
Outra família em alta: CÉSAR CAMARGO MARIANO e PEDRO MARIANO, viúvo e filho de Elis, pai e irmão de Maria Rita, radicalizam a proposta em 'Piano & Voz' (ed. Trama), que é isso mesmo, um encontro a dois. Para quem conhece Pedro dos três discos anteriores, este é o passo que faltava até à maturidade. Quem não conhece César, não sabe nada de MPB. As canções vêm de Jobim e Noel Rosa, de Djavan e Lulu Santos, de Rita Lee e Jair Oliveira. Lindo como poucos. Um clássico que merece chegar cá… já.
A colecção da Elenco – a editora de Aloysio de Oliveira, que deu cartas nos anos 60 – lança lá (e cá, quando?) uma gravação com 40 anos, na boite Au Bom Gourmet. A protagonista é MAYSA, a voz forte e trágica do Brasil, da mulher que morreu como viveu: na tristeza e depressa. Do bolero à bossa, em 'standards' como 'I've Got You Under My Skin', não se esgota. É a cara da artista e, sobretudo, a sua alma única, com muito Jobim, Adoniran Barbosa e até Carlos Lyra. Obra-prima, mesmo à distância.
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