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Vivemos num País em que tudo é permitido. E num País em que tudo é permitido, Scolari – treinador com cartel – permite-se abusar. Dir-se-á que o seleccionador nacional gere a sua carreira de acordo com interesses pessoais e que não é preciso ser Carnaval para ninguém levar a mal. É óbvio e legítimo que haja, em tudo, uma componente de defesa do que é pessoal. Não é isso, pois, o que se contesta. O que está verdadeiramente em causa é a forma como se exerce um cargo de tão grande relevância como é o de liderar, mesmo no plano técnico, uma selecção nacional, maior bandeira de uma instituição de utilidade pública, ícone da nação.

Até à chegada de Scolari tínhamos da selecção nacional/ /FPF uma ideia de desorganização, confusão e falta de mando. Com o tipo de abordagem que o técnico brasileiro fez, assente na rápida leitura da mentalidade cá do burgo, mui louvaminheira, benza-a Deus, a FPF criou uma espécie de scolaridependência, secando – como o eucalipto – quase tudo à sua volta. Tudo menos um conjunto de jogadores que são a sua garantia. E esta é uma habilidade que sociologicamente, no âmbito do estudo da dinâmica de grupos, pode representar um ponto a favor de Scolari. Contudo, essa habilidade potenciadora do trabalho da equipa que comanda representa, também, em contraponto, algo que seria inaceitável num País normal e numa Federação normal: a utilização da prerrogativa de seleccionar para colocar os jogadores contra os seus próprios clubes e, mais do que isso, estimular os atletas a mudar de clube!

Scolari ganhou Ricardo quando Ricardo tinha o Mundo contra ele.

Scolari não precisaria de conquistar Deco, em razão dos laços de sangue, mas ao promover a sua naturalização, numa altura em que os responsáveis pela ‘amarelinha’ nem sabiam quem o rapaz era, deu-lhe o nó cego.

Scolari chegou a ter Figo enrugado como uma passa do Algarve mas, coincidência ou não, um anúncio na televisão (protagonizado por ambos) a promover um conhecido banco português pode ter contribuído para acabar com o amuo.

Scolari mostrou uma grande compreensão para com Cristiano Ronaldo quando este foi acusado de ter sido protagonista de uma violação em Inglaterra.

Scolari atraiu Nuno Valente quando disse expressamente ao jogador que contava com ele, mesmo antes deste ter arranjado lugar no Everton.

Scolari deu a mão a Maniche, quando este disse mal de Moscovo e do Dínamo.

Scolari colocou a rede sob Hugo Viana quando este saiu do Sporting.

Scolari promete agora ajudar a arranjar clube para Costinha (provavelmente na América do Sul), que também está de costas voltadas para os responsáveis russos. Este altruísmo do seleccionador só pode ser muito bem visto internamente porque desta ou daquela maneira ninguém ou muito poucos estão em condições de contestar o favor a alguém.

Esta política de cartel, que felizmente pode resultar em benefício da optimização das qualidades dos jogadores, mais disponíveis do ponto de vista psicológico (valha-nos isso!), coloca em plano secundário os critérios tradicionais de escolha que tinham a ver com qualidade técnico-táctica e sobretudo com forma física aliada a rendimento.

Para Scolari um jogador pode estar em grande plano, competitivamente, mas se não reunir condições muito específicas, até do foro extradesportivo, não é chamado. Ponto final.

Se Scolari entender que não deve convocar jogadores do FC Porto, não convoca, ponto final.

Repare-se nesta situação bizarra em que foi colocado Quaresma. Um jogador que cresceu como cresceu nos últimos tempos, com o historial que já protagoniza em matéria de selecções, considerado por muitos como o melhor jogador do campeonato português, necessita de ser... testado?!!!

Em conclusão: com os jogadores que temos, alguns dos quais referenciados entre os melhores do Mundo (como Figo, Deco e Cristiano Ronaldo), é natural que Portugal tenha aspirações na Alemanha. O seleccionador nem precisa de saber de tácticas. Basta dar lustro aos diamantes e às pedras... menos preciosas.

A QUEDA DE FLORENTINO REPÕE AS RAZÕES DE QUEIROZ

Florentino Pérez cai. Quase seis anos à frente dos destinos do Real Madrid. Queixa-se de não ter sido acompanhado pelos jogadores que ajudou a glorificar. O Real foi o clube que gerou mais proventos em 2004-2005 (275,7 milhões de euros, mais 17% do que na época anterior). As receitas de matriz comercial estão no topo desses proventos mas, ironicamente, a equipa de futebol tem-se revelado ineficaz nos últimos anos, incapaz de reagir à política dos ‘Zidanes e Pavones’. Florentino partiu de uma ideia simples mas errada em futebol: não basta contratar nomes ou grandes jogadores; é preciso estabelecer o equilíbrio. Ele falhou esse equilíbrio. O dinheiro não é tudo. Os adeptos querem resultados no campo. Um ‘flop’ que é uma lição para todos. Queiroz bem dizia que um Ferrari precisava de pneus. A razão tarda muitas vezes a ser reconhecida...

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