Não haverá maior disparate do que aguardar uma revolução: ele tem mais de um quarto de século de palcos e estúdios, dezenas largas de canções, soube sempre mostrar ao que vinha, primeiro em grupo (e os Trovante continuam a ser belíssima fonte de inspiração, a que se regressa sem complexos e com vontade) e depois com o seu projecto em nome próprio. Talvez nem seja legítima a esperança de uma grande surpresa - essa mostrou-a quando teve a coragem e o bom gosto de um álbum de intérprete como 'Reserva Especial', um superior 'portfolio' de referências e primeiras escolhas.
De Represas, espero, então, que me emocione, me impressione, me cative para as suas canções de estrutura clássica (algumas são 'standards' imediatos), me descanse com o bom senso e o bom gosto dos arranjos que lhes promove, me inquiete com os seus episódios e leituras, buscados num percurso que, sendo dele, poderia ser de todos os que lhe levam vidas paralelas, que me sossegue com a sua voz, 'pormenor' com a máxima importância. Neste quadro, 'Fora de Mão' (ed. Universal) é provavelmente o melhor dos discos a solo de quem o assina. Porque joga (sábia ou intuitivamente, responda quem souber) com equilíbrios de estilo e de temática, porque carece de exageros ou simplismos, porque é profundamente coerente nas várias pistas que desbrava, porque vale todos os naipes da emoção e todos os trunfos jogados a tempo e horas.
Sejamos mais claros: 'Fora de Mão' é um disco de canções capaz de deambular, sem espartilhos, entre a subtileza das cordas da Orquestra Sinfónica Nacional da República Checa e o balanço intrínseco dos metais cubanos, sem esquecer as bases habituais (com destaque para o piano de Miguel Nuñez e para as guitarras de Luís Fernando). Abre em alta com um 'mid tempo' que merece o pico radiofónico e que valerá o bis nos concertos, o exemplar 'Da Próxima Vez' [a propósito, já alguém reparou que, no clip, o jornal que Represas lê enquanto está sentado na esplanada é o CM?]. 'Acontece (Às Vezes)' vale-se de um inspirado poema de João Monge para ser pedra de toque de todo o álbum. 'Fogo de Vista', outra declaração de amores, brilha pelo arranjo e pela simplicidade de processos. 'O Jogo (Quando Acordares)' é um surpreendente 'blues', cheio de 'swing', marcado pelos metais e pela guitarra. 'Nós Vamos Lá Chegar' é uma típica de Represas, recado bem diferente de 'Uma Prece', onde o olhar se vira para fora e que pode ser o hino contra o deserto da inteligência em que estamos a habituar-nos a viver. 'Ando Em Busca das Palavras' é outra espécie de arrepio, para voz e piano acústico, uma deambulação pelo espelho e pela paisagem e de dúvidas que cada um constrói. 'Eu Vi (Porque Olhava Bem De Frente Para Ti)' ensaia uma viagem entre o samba e o 'son' cubano… mas é Represas. 'Mariana' é o 'grand finale', quase um testamento.
Não é pouco, se juntarmos a limpeza magnética do som, a grandeza sem mancha desta voz. Mais uma vez, melhor desta vez, Luís Represas é o sábio porta-voz da inquieta serenidade que pode morar nas canções. Pode estar 'fora de mão', pode - e deve! - manter-se 'fora de moda'. Mas não merece mesmo nada ficar de fora nas nossas atenções, intenções e devoções. Ora ouçam lá…
Edição obrigatória para fãs dos COLDPLAY (como eu) é a do DVD 'Live 2003' (ed. EMI-VC). Os hinos à mistura com um trio de canções mais obscuras, numa viagem que explica a razão do grupo de Chris Martin ser a grande coqueluche britânica. É hora e meia para um concerto registado em Sydney e feito sempre no limite, a lembrar o de Lisboa. Há mais um 'diário de digressão', documentário de 40 minutos, e um CD audio bónus, também ao vivo, com 12 das 17 canções do DVD. Chega e sobra para não perder.
New York vivia «a idade da inocência», vinte anos exactos antes do 11 de Setembro. E o reencontro de SIMON & GARFUNKEL para o 'Concert In Central Park' (ed. Sony Music), nesse Verão de 1981, dava direito a uma celebração 'ecuménica', num dos 'shows' históricos a que a cidade assistiu. Com músicos como o baterista Steve Gadd e o pianista Richard Tee, é luxo do princípio ao fim. O DVD não tem extras mas com 22 canções (uma repetida), também não precisa. E não se recomenda só aos nostálgicos.
Escrevo-o com pena, tanto mais que SOFIA BARBOSA foi sempre a minha preferida entre os cantores da primeira edição da 'Operação Triunfo'. Mas fico com a ideia de que o melhor da voz que aqui deveria revelar-se é deixado para trás. Sofia ganharia com mais alma, mais rasgo, menos preocupações de cumprir o 'bonitinho'. 'Contrastes' (ed. BMG) desmente o título e só chega à diferença em 'Mundo de Colorir' e 'Calling You' (de 'Café Bagdad'). O que vale é que as escolhas de Sofia estão a começar…
'Operação Triunfo', parte dois: o caso de DAVID RIPADO é em tudo idêntico ao da sua parceira de aventura. A matéria-prima das canções parece formatada para tentar alcançar públicos múltiplos, o que só se torna um problema quando o nível não é alto nem deixa passar as emoções de uma voz que, também aqui, merecia melhor sorte. Dentro do 'mainstream', é difícil definir logo uma personalidade. E, não acontecendo isso, sobra pouco: afinadinho, certinho mas banal. Muito curto para as expectativas.
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Por Carlos Rodrigues
Ninguém pedia que a Europa marchasse com Israel e os EUA para o Irão.
Enquanto o COI impedia homens biológicos de baterem em mulheres, por cá a gente entreteve-se com uma pseudo-traição na ‘Secret Story’ e a bolha mediática acha mal José Luís Carneiro pressionar pela libertação de presos políticos.
Hoje, o desafio não é reescrever o texto constitucional, mas cumprir o seu espírito.
Os filhos levam tempo até perceber que os pais também são humanos.
Somos dos países mais seguros. Porquê? Porque somos dos mais subdesenvolvidos.