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João Vaz

João Vaz

Redator principal

O Estado dos outros

27 de abril de 2010 às 00:30

As greves anunciadas para hoje no sector dos transportes, onde dominam empresas públicas com défices gigantescos e gestões ruinosas, exigem reflexão. E esta ganha em ser mais ampla do que as reivindicações, nomeadamente a luta contra o congelamento de salários, quando as dificuldades económicas das famílias se agravam.

O protesto é um direito que assiste aos cidadãos. E como a cada direito corresponde um dever, quem protesta tem a obrigação de pensar no seu compromisso social com os outros. Não se pode simplificar a reivindicação a uma luta contra o patrão. Sobretudo quando esse patrão é o Estado, que se pretende regulador e harmonizador da sociedade.

Há um século, a ideia que mobilizava os desfavorecidos era a de assaltar o poder de Estado para mudar a sociedade. Se não havia justiça e paz é porque os capitalistas contavam com a força do Estado para reprimir qualquer tentativa de os trabalhadores se oporem à exploração. Desenvolveram-se vários caminhos. O do comunismo soviético degenerou numa oligarquia e acabou com as pessoas na maior das opressões e miséria e uns quantos oportunistas multibilionários. Noutros países, desenvolveram-se formas de concertação social, com o trabalho colectivo a conquistar admiráveis melhorias de vida. O Estado funcionou como garante de justiça e segurança e criaram-se serviços públicos importantes, sobretudo na saúde e educação.

Os cidadãos de alguns países, infelizmente uma minoria no mundo, usufruem de apoios de solidariedade social para ultrapassar as dificuldades e as calamidades. A ideia de que o progresso era ininterrupto e sem fim gerou, contudo, um mito tão perigoso como a exaltação dos amanhãs comunistas. E como a imagem passou a dispensar a existência de qualquer ideia ou dimensão espiritual, as sociedades andam à deriva, ninguém acreditando em ninguém.

O desequilíbrio na distribuição da riqueza é uma realidade que se tem de emendar. E só é possível consegui-lo com mais exigência às funções de organização e regulação do Estado. O Estado não tem capacidades da divina providência, para resolver os problemas com chuva de maná, nem de abastado mecenas com bens inesgotáveis. O Estado só redistribui o que recebe e fá-lo com muito desperdício. Não vale a pena sonhar com um Estado magnânimo pago pelos outros. Não, o Estado não é dos outros. É nosso e, lastimavelmente, está a ser mal governado. É contra isto que se tem de agir.

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