Um gesto irreflectido de Manuel Pinho marcou o debate do Estado da Nação. Por muito que me custe escrever esta frase, ela corresponde à percepção imediata dos portugueses. Mas também sei que essa percepção é poeira que se acalmará com o tempo. Esta crónica antecipa o que se verá quando a poeira assentar de vez.
Em primeiro lugar, o debate do Estado da Nação foi um confronto entre políticas e propostas do Governo, discutíveis mas concretas, com um apagão táctico das oposições, temendo que qualquer ideia lhes perturbe a acumulação de descontentamentos difusos com que planeiam vencer as eleições que se aproximam.
Tirando o incidente que marcou o debate, este assinalou o fim do Estado de Graça de Paulo Rangel e do PSD, conseguido com o resultado das eleições europeias.
Em segundo lugar, mais do que avaliarem um momento de infelicidade de um membro do Governo, os portugueses apreciarão a forma como a situação foi debelada com dignidade por todos os intervenientes e resolvida com rapidez e ponderação pelo chefe do Executivo.
Mas o mais importante é sublinhar que a forma não pode esconder a substância. Manuel Pinho pode ter tido momentos de menor autocontrolo na comunicação e na expressão mas fez obra meritória no desempenho do seu cargo. Foi visionário na forma como colocou, com a sua equipa, Portugal na fronteira tecnológica em sectores-chave, de que as energias renováveis são o melhor exemplo. Foi pragmático na maneira como traduziu essa visão em oportunidades de negócio para as empresas portuguesas e em âncoras para a internacionalização da nossa economia.
No dia a seguir ao da demissão de Manuel Pinho, muitas foram as vozes que não se coibiram de afirmar que o legado deste ministro da Economia vai muito para além da imagem caricata que a parafernália mediática espalhou pelo Mundo.
Junto-me a essas vozes. Embora vivamos um tempo político dominado pela imagem, o gesto ainda não é tudo. Importante é o que se faz – e Manuel Pinho pode orgulhar-se do que fez.
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Por Carlos Rodrigues
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