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Há personalidades que ultrapassam as suas fronteiras e o seu tempo. Escapam aos rótulos habituais e às etiquetas rápidas, sejam elas ideológicas, culturais, partidárias ou até religiosas. Por isso, ficam na História que ajudam a escrever com as suas vidas e os seus testemunhos.

Há um ano atrás, morreu João Paulo II. Ele era uma dessas personalidades. O seu magistério não se confinou aos católicos, dirigindo-se, antes, a todos os homens. Também João Paulo II escapou a rótulos e a ferretes em que o tentaram encerrar – mais para o condicionar do que para o compreender.

O Papa que veio do Leste defendeu os homens de todas as condições e em todas as dimensões; proclamou a liberdade para o Leste com o mesmo vigor com que criticou aspectos do capitalismo ocidental; foi um amigo dos pobres e estimulou quem a eles se entregava; reforçou a relevância da Igreja Católica, no plano internacional, mas aproximou-se e fez aproximar outros cristãos e outras confissões religiosas; condenou o terrorismo, mas para o combater, não aprovou a guerra; assumiu a História, sem enjeitar também o que de errado a Igreja fez no passado.

Pode dizer-se que João Paulo surpreendeu quase tudo e quase todos – fora do mundo católico, mas também dentro da Igreja. A última lição de vida deu-a com a própria morte: na forma como dela se aproximou, sem abdicar nem desistir como muitos o aconselharam ou pediram.

Mas em todos os sectores e áreas da vida o papel das lideranças é crucial. A Europa (só a Europa?), por exemplo, acusa evidente défice de liderança.

O que se passa em França ou na Itália é eloquente. Mas não só. No último Conselho Europeu, os 25 tinham muita coisa para tratar. A começar pelas reformas de que a Europa precisa e que implicam sobressaltos sociais (de resto, tanto maiores quanto mais se adiarem as mudanças). Condicionados pela situação interna francesa e pelo calendário eleitoral italiano, os dirigentes europeus encolherem-se, evitando, em geral, temas incómodos.

Nos últimos 50 ou 60 anos, a Europa teve líderes fortes – nos governos dos países e no governo comunitário. Pode gostar-se mais ou gostar-se menos do conceito europeu, mas ninguém põe em causa nomes como Jean Monnet, Schuman, Adenauer, Kohl, Mitterrand ou Jacques Delors, apenas para citar um reduzido número. A capacidade política destes e de outros homens foi decisiva para conduzir os europeus em momentos difíceis: desde a reconstrução do pós-guerra à queda do muro de Berlim, passando pela guerra fria.

Sem os líderes de ontem, a Europa de hoje sendo maior é também mais frágil: precisa de responder a desafios intensos que vão desde o terrorismo ao colapso anunciado de um modelo social, que deveria garantir o bem-estar, em tempos de paz.

Sem um maior envolvimento entre a sociedade e a vida política, esta torna-se um reduto daqueles que a escolhem pelos piores motivos. Mas, no estafado discurso de que os políticos são maus, falta saber o que fizemos para que eles sejam melhores.

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