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Um presidente da Câmara fecha um mercado municipal. Aliás, a história é mais do que isso: um presidente da Câmara fecha o Bolhão. O Bolhão das peixeiras que beliscaram as bochechas de Soares e chamaram “lindeza” a Eanes. Um presidente da Câmara fecha as bancas de trabalho de um símbolo nacional e, o que mais é, um símbolo barulhento e com os microfones à perna. O tal presidente da Câmara é maluco. Só pode.

Ainda não acabei. Um presidente da Câmara fecha o Bolhão nas vésperas de eleições autárquicas. Nas vésperas do presidente da Câmara ir a votos. Coisas que (os votos) – todos os políticos portugueses o sabem, quanto mais os do Porto! – se recolhem às paletes, nos dois andares do Bolhão. O Bolhão que um político, qualquer político, não pode desdenhar: até o tão-pouco popularucho Pacheco Pereira o vi, esfuziante, entre lulas e dióspiros, a vender lá o seu candidato. Olha, foi nas anteriores autárquicas e o candidato de Pacheco Pereira era este Rui Rio, que agora fecha o Bolhão. Desagradecida criatura (o Rio). Antes, vai lá pedir batatinhas. Depois, fecha-lhes a loja.

É verdade que Rui Rio diz que tem um parecer técnico anunciando a provável derrocada de parte do Bolhão. E depois? Desde quando um provável acidente serve para perder votos? Um acidente, sim, é para dar atenção. Porque um acidente, ao contrário da previsão de um acidente, dá votos, não tira. Justamente, deixa-se acontecer o acidente e o político é o primeiro a aparecer. Agarra nos microfones (eu já disse: aquele mercado é o maior produtor nacional de microfones) e lamenta. Promete enterrar os mortos e cuidar dos vivos. Os acidentes são para isso, para mostrar serviço de um político.

Agora um provável acidente?!! Que é isso? Um acidente anunciado, para um político português, é como uma meia gravidez: não existe. Ou ele é acidente, e então chora-se; ou ele ainda não é acidente e, então, esconde-se a cabeça na areia, apesar dos pareceres técnicos. Já viram, em campanha eleitoral para Governo, um candidato basear-se em pareceres técnicos das Finanças e dizer que fecha os aumentos dos salários? Não. Diz que vai aumentá-los (os ordenados) e diminui-los (os impostos). As obras (melhor, os bicos de obra (aumentar os impostos e diminuir os salários) ficam para depois dos votos, nunca são praticadas antes.

Mas este tanso do Rio, quer fazer tudo ao contrário. Fechar a Ala Sul do Bolhão, porque está em perigo. ANTES DOS VOTOS! Em perigo fica ele, o morcão, o pato do Bolhão. Não ser eleitoralista no Bolhão: onde é qu’isto vai parar? Fosse ele um político a sério, metia o parecer técnico na gaveta e fazia a campanha eleitoral toda no Bolhão. Na Ala Norte, claro, não vá o parecer estar demasiado certo. Mas chamava as comerciantes da Ala Sul para a fotografia. Posava com a Bina das nabiças e a Quinhas dos chicharros. Com um pouco de sorte desenterrava-se a foto, para o ano, no enterro das mulheres. Seria a prova de que elas, a Quinhas e a Bina, eram indefectíveis do Rio. Com o ar tímido que ele até tem, Rui Rio limpava uma lágrima de saudade, frente às câmaras: “Nunca me esquecerei que elas me diziam: ‘Quem dera eu ser uma ponte para te atravessar toda, ó Rio!’...”

Mas não. Rui Rio prefere tratar os seus munícipes de inteligentes e fechar um edifício que ameaça ruir. Ruir Rio vai ele, para não se armar em esperto.

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