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Francisco Moita Flores

Francisco Moita Flores

Professor universitário

OS TUMULTOS DA BATALHA

01 de agosto de 2004 às 00:00

1. Já não é novidade que Santana Lopes nem teve o tempo habitual, e ritualizado, do estado de graça comum a qualquer Governo que inicia funções. Todos os motivos servem para uma comunicação social hostil, umas vezes por iniciativa própria, outras vezes acirrada por inimigos internos e adversários externos. Agora o pretexto mais próximo são os incêndios e a inesperada (ou talvez não!) demissão do Director Nacional da PSP.

Tenho estima pessoal por Mário Morgado mas não posso deixar de reconhecer que o seu mandato foi infeliz. A primeira vez que um civil, neste caso um juiz, dirigia a PSP, esperava-se, e desejava-se, um final mais feliz. É certo que Mário Morgado rompeu com velhas e anquilosadas tradições corporativistas, fez um esforço de modernização, deu visibilidade a uma polícia de cara lavada.

Surgiram muitos novos oficiais em posição de comando, e nesta sociedade mediatizada, deram a cara com qualidade pela instituição fazendo esquecer o tempo em que a polícia fugia das televisões, escondendo-se em comunicados e incapaz de organizar dois raciocínios seguidos. Percebe-se que deixou um bom fermento para o futuro.

Porém, conseguindo pontos positivos nesta reforma, abriu muitas frentes de conflito, com oficiais superiores, com oficiais há anos à espera de promoção, e finalmente com os guardas da PSP, e por via dessa fractura, as sucessivas, e quanto a mim, excessivas, manifestações de rua, protestos, ameaças – uma das últimas com um quase cerco ao MAI – foram descredibilizando o ministro e isolando o director nacional.

Deve dizer-se a este propósito para melhor se compreender a complexidade do enredo que nunca sindicatos da CGTP ou da UGT tiveram tanto tempo a direito de antena, directos e debates como os da polícia nos últimos anos. O que mostra como os movimentos sindicais não são politicamente neutros neste combate.

Com a chegada deste governo, era já um homem sozinho, acossado, sem grandes soluções para escapar ao desfecho que ele dignamente quis antecipar.

As reacções dos partidos da oposição à demissão de Mário Morgado, alguns deles foram quem mais contribuiu para a sua queda, são reacções patéticas. Daniel Sanches ainda nem teve tempo de aquecer o lugar para ser confrontado com uma responsabilidade que, pelo que se sabe, não é sua. Vamos ver, agora com o novo director nacional, se o Governo tem unhas para a guitarra que tem nas mãos para tocar.

Porém, isto é apenas a leitura superficial do ataque. Porque no fundo, e aí se jogará o futuro deste governo, aquilo que se adivinha, é a verdadeira luta pelo poder real na política através das polícias. Defendo o princípio que cada Governo deve assumir claramente as substituições que ache convenientes para a prossecução da sua política. Seja qual for o Governo para que não sejam direcções-gerais a determinar políticas mas o inverso.

E ou Santana Lopes tem a visão, e a audácia, de substituir, alterar, manter lugares em função do seu desenho político ou então, os ‘boys’ que polvilharam a máquina do Estado e gerem como quinta privada vão assassiná-lo politicamente ao virar da próxima curva apertada. As primeiras iniciativas do primeiro-ministro ainda não se conhecem nas suas consequências finais. Vamos ver.

A guerra que se desenha não vai ter quartel e a razão é simples: no jogo democrático, há quem continue a comportar-se como os velhos caciques de oitocentos. Democracia sim, mas só para alguns e sempre para os mesmos.

Ao ceder ao compromisso, ao permitir que cada vez que cai o pano, e ao abrir surjam as mesmas figuras e intenções com rostos diferentes. Santana Lopes vai escavando a sua própria sepultura. Está nas suas mãos o seu destino. Ele saberá o que fazer para o trilhar para o sucesso ou para o insucesso. Daqui a dois anos os portugueses julgarão.

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