Portugal – diz Celso Antunes da Costa, presidente do Banco do De-senvolvimento de Pernambuco – quando decidiu cuidar do povoamento e proteger a defesa da sua grande colónia nas Américas, instituiu no Brasil o sistema das Capitanias hereditárias, uma "experiência capitalista", ao tempo de D. João III. E desde aqueles primeiros momentos, a cana-de-açúcar logo se fez parte da paisagem brasileira.
Ao longo do litoral, ergueram-se centenas de engenhos de açúcar, formando as bases de uma economia que veio a constituir o primeiro ciclo económico da nova colónia. Dir-se-ia que a cana, vinda da Nova Guiné Oriental, através da Índia, África, bacia do Mediterrâneo e ilha da Madeira, encontrou as perfeitas ou melhores condições de seu habitat ao longo do litoral brasileiro, dada a riqueza do solo e a extensão de terras em clima tropical. No dizer de Luiz Hafers, o açúcar é a doçura que, para ser produzida custou muita amargura e luta, envolvendo a maior migração, forçada e desumana, de mão-de-obra da África para o Brasil e outras partes do mundo.
No Brasil, foi base da miscigenação e a história regista uma deslocação de pelo menos três milhões de africanos ao longo de alguns séculos para constituir a mão-de-obra escrava da economia brasileira, então fundada, sobretudo, na cultura do açúcar. Quando os holandeses invadiram o Brasil, na primeira metade do século XVII e lá estiveram até serem derrotados após 30 anos, foi o açúcar a razão da aventura.
É impressionante pensar que a cana-de-açúcar tivesse sido conhecida há cerca de 12 mil anos, na distante Papua, da Nova Guiné, de onde foi levada para a Índia e mais tarde para a África e de lá alcançou a Sicília, Espanha e Portugal, particularmente o Algarve, ao tempo de D. João I, no começo do século XV. O Infante D. Henrique, a extraordinária figura da "ínclita geração" a que se referiu Camões n'Os Lusíadas, trouxe para a ilha da Madeira a cana-de-açúcar, que veio a ser um dos grandes propulsores do progresso do mundo colonial português.
O açúcar, já no século XIV, segundo Leonardo Dantas Silva, era vendido na Europa, apenas em boticas. Na verdade, era consumido como remédio e regalo parcimonioso da gente rica. Mas já fazia parte da doçaria portuguesa, com seus bolos de mel, ou alfenim.
A entrada do açúcar no Brasil deu-se em São Vicente, primeira cidade fundada no Brasil, no litoral paulista, por Martim Afonso de Sousa e seu irmão Pêro Lopes de Sousa, que disse do então novo sítio urbano ser o primeiro na nova terra brasileira onde havia "vida conversável".
Embora o século XVII tenha sido o século da entrada maciça do açúcar nos hábitos e na cultura europeia, consta que o açúcar foi conhecido em Veneza poucos anos antes do ano 1000. Assim, foram os italianos os primeiros europeus a perceber a especial importância da cultura da cana-de-açúcar no Oriente e do produto dela resultante, tomando-se o motor da sua expansão no Ocidente cristão.
Na realidade botânica, a cana-de- -açúcar é uma gramínea, gigante sim, mas uma gramínea, cujo produto chineses e indianos souberam fabricar mais de 500 anos antes de Cristo. Alexandre, o Grande, conheceu-o como çárkara, do sânscrito, cristal obtido a partir do suco da planta. E assim veio a nascer um novo alimento no mundo: saccharum dos romanos, sukkar dos árabes. Os venezianos baptizaram--no de zucchero, os franceses, sucre; os ingleses conheceram-no por sugar e os portugueses por açúcar; na Espanha azúcar, na Alemanha zucker, na Rússia sakhar.
No século XVII, na Europa a moda do café, do chá e do chocolate (cacau) desenvolveu sensivelmente o consumo do açúcar, mas ainda assim era um género caro e precioso. No século XVIII, o alemão Marggraf descobriu a extracção do açúcar a partir da beterraba, colaborando para a solidificação do açúcar como produto adoçante e assim ocupando ainda mais o lugar do mel derivado da abelha, ou melissa da Antiguidade grega.
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