Esta discussão em redor do referendo ao aborto do dia 11 é uma coisa arreliadora. Coitado do povinho que ouve todos os dias os argumentos que as tias inventaram para defender o ‘não’ e as palavras com cheiro a mofo do Carvalho da Silva para defender o ‘sim’, assim como quem justifica mais uma greve.
Querida tia escrevi-lhe apenas para desabafar. É que isto não se aguenta. Ninguém é claro, nem fala verdade. Andam todos a tentar enganar o próximo. E se isso não me incomoda quando lá vem o comício do senhor da CGTP, confesso-lhe que fico muito abalado quando vejo a tia Gertrudes e tantas outras tias nossas a cometer o pecado de confundirem esses pobres diabos que também vão votar no dia 11.
Ainda tenho nos ouvidos os sermões do padre Francisco, nas missas de domingo, a exemplificar que não se deve mentir a ninguém, muito menos aos mais desfavorecidos. Quem diria que a tia Gertrudes ia à televisão para assegurar que se votarmos no ‘sim’ será a grande corrida para as clínicas de parto, podendo o País ficar deserto. Quando morrer esta geração quem receberá o testemunho?
Dizem que o índice de natalidade continua a diminuir porque o que as mulheres portuguesas querem é andar na rambóia durante a noite para depois enriquecer as clínicas de aborto tal como fazem com os spa e com os centros de estética. Mas, pelas alminhas, ou eu já não sei o que leio ou isso são muitas mentiras juntas.
Em primeiro lugar, “ninguém é obrigado a abortar”. Os que quiserem aproveitar os subsídios para famílias numerosas podem até fazer filhos, uns a seguir aos outros. Se é assim, a liberalização afinal é para ter filhos.
Os chineses não deixam nascer mais do que um por casal, aqui há prémios e subsídios para quem fizer muitos. Em segundo lugar ainda não percebi porque é que os apoiantes do ‘não’, que são contra o aborto, afinal só são em parte. Há situações em que admitem que o indicado é abortar. Ora, isto não é lá muito católico. Se são contra o aborto deviam assumir isso e não abrir excepções. Prontos. Não há abortos. Mas não. Não é assim.
Em terceiro lugar, o que a pergunta do dia 11 quer saber é se os portugueses acham que as mulheres devem, ou não, ser presas se fizerem um aborto até às dez semanas. É que agora vão presas. Não percebo. A tia Tita, a tia Bábá, a tia Juju sempre que engravidavam sem querer iam ali a Espanha e faziam um aborto. E não iam presas. Mas umas vão e outras não? Que coisa tão complicada. Se calhar era melhor não perseguirem mais as mulheres, coitadinhas, e quando querem abortar, até às dez semanas, vão fazer isso num lugar decente, com médicos e tudo.
Querida tia, não é fácil ser prior desta freguesia. Espero não estar a pecar quando discordo das tias.
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Por Carlos Rodrigues
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