O Presidente da República não concordou com a guerra no Iraque, bem antes de ela se iniciar. As discordâncias e as reservas presidenciais, até quanto à cimeira dos Açores, foram conhecidas cá dentro e lá fora.
Depois, as coisas desenvolveram-se como é sabido – os Estados Unidos não encontraram armas químicas e perderam o rasto de Saddam Hussein.
A guerra, que nas palavras do Papa João Paulo II é sempre uma derrota da humanidade, ficou cada vez mais órfã de uma justificação plausível e cabal.
Mas os militares da GNR foram para o Iraque integrados numa missão internacional –, goste-se ou não, estão lá.
Cada um de nós pode continuar a ter as suas opiniões sobre o sentido da guerra ou sobre a sua falta de sentido. Mas o Presidente da República que é também o comandante supremo das Forças Armadas, não manifesta estados de alma nem exprime posições pessoais – representa o País em todos os momentos, incluindo os menos bons; representa os portugueses em todas as circunstâncias, mesmo aqueles que se encontram em missão oficial no Iraque. Por isso, as suas declarações, esta semana, na Argélia, contra as forças ocupantes do Iraque, foram, no mínimo, imprudentes.
A presença de militares portugueses no terreno deveria implicar mais equilíbrio por parte dos principais responsáveis. A leveza de opiniões, em matérias de Estado, em nada contribui para melhorar a qualidade do debate público, coisa de que a democracia portuguesa tanto precisa.
ELOGIO DA DIFERENÇA
O caso da escola de Bragança, cujos pais receavam a inclusão de crianças ciganas, mostra que a sociedade portuguesa tem ainda dificuldade em lidar com a diferença.
Claro que é necessário respeitar a segurança e bem estar de todos, designadamente dos mais jovens, mas não se podem atirar para acima de qualquer etnia os exclusivos e os carimbos da criminalidade.
A actividade criminal em Portugal, toda a espécie de crimes, é levada a cabo por pessoas de todas as comunidades, designadamente pela população portuguesa. O que não se pode nem deve é confundir pessoas em concreto, com a comunidade a que eventualmente pertençam.
A esta generalização, abusiva e perigosa, vai-se somando uma outra, igualmente lamentável – a de que o crime é coisa de pobres. Longe disso. Como se prova por tantos processos que têm ocorrido em Portugal, há muito que a actividade criminal não conhece fronteiras geográficas nem barreiras sociais ou profissionais.
De resto, basta olhar para a nossa História e ver, como em múltiplas ocasiões concedemos por cá (e obtivemos lá fora), o acolhimento indispensável àqueles (ou daqueles) que por serem diferentes não são melhores nem piores.
Esta matriz cultural portuguesa é a melhor defesa contra episódicas manifestações de intolerância, nunca esquecendo que a forma como as sociedades convivem com a diferença representa um autêntico barómetro da sua qualidade humana.
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