page view
Francisco Moita Flores

Francisco Moita Flores

Professor universitário

Raul Solnado

09 de agosto de 2009 às 09:00

Devia falar de polícias e ladrões mas doem-me as dores das lágrimas. Sei que, neste momento, comigo choram milhões de portugueses que aprenderam com o Raul a inteligência do riso, que com ele chegaram ao coração mais afectivo da gargalhada. Com ele o País o mudou. A comédia deixou de ser o jogo de enganos e trocadilhos para se transformar no jogo da verdade, por vezes cruel, como tantas vezes a revelou no ‘Zip Zip’, outras vezes irónica e doce, como na peça ‘Há Petróleo do Beato’.

Não é possível escrever a história do teatro e da televisão dos últimos cinquenta anos sem surgir, várias vezes, o seu nome, sempre associado ao que melhor, mais divertido, mais inteligente nos foi oferecido. E também no cinema. A personagem que interpretou na ‘Balada da Praia dos Cães’ é apenas possível vinda de um actor com a sua genialidade. Perdemos ontem uma das pérolas mais preciosas das artes portuguesas. O gago que dissimulava a gaguez para usar as palavras com intencionalidades imprevistas. Que fez tudo aquilo que um grande actor pode ambicionar: comédia, revista, dramas, interpretou clássicos e criou rábulas. Entregou-se com a alma toda e um talento único ao seu ofício da simulação e da dissimulação.

Partiu como viveu. Discreto, feliz na sua paixão pelo teatro, amado por públicos de várias gerações, sempre disponível para os combates pela solidariedade, na defesa dos mais desprotegidos. Raul Solnado é o exemplo de que só homens bondosos, tolerantes e solidários podem ser grandes nas suas profissões e ascender ao panteão dos grandes mitos.

E eu perdi um amigo. Foi ao encontro de outros amigos que nos ficam para sempre como referência de vida e, tenho a certeza de que, apesar de ter partido há poucas horas, está a rir no mesmo cantinho lá do céu que pertence aos grandes actores na companhia do Armando Cortês, do Canto e Castro, do Henrique Viana e tantos outros com quem partilhei tantas horas de trabalho e enlevo. Hoje não é apenas o teatro, a televisão, o cinema que estão de luto. A morte de Raul Solnado deixou o País mais pobre. E uma multidão de admiradores que dele se despedem saudosos e magoados com esta partida tão definitiva. Valha-nos a memória e o coração, onde este grande actor viverá para sempre.

Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?

Envie para geral@cmjornal.pt

Logo CM

Newsletter - Exclusivos

As suas notícias acompanhadas ao detalhe.

Adeus, Jogos ‘Wokelímpicos’

Enquanto o COI impedia homens biológicos de baterem em mulheres, por cá a gente entreteve-se com uma pseudo-traição na ‘Secret Story’ e a bolha mediática acha mal José Luís Carneiro pressionar pela libertação de presos políticos.

Constituição

Hoje, o desafio não é reescrever o texto constitucional, mas cumprir o seu espírito.

Blog

Somos dos países mais seguros. Porquê? Porque somos dos mais subdesenvolvidos.

Mais Lidas

Ouça a Correio da Manhã Rádio nas frequências - Lisboa 90.4 // Porto 94.8