Os eleitores alemães colocaram o seu país na rota da ingovernabilidade, ao não darem um apoio alargado nas urnas a nenhum dos principais partidos do sistema político.
O resultado das eleições legislativas na Alemanha traduziu-se num autêntico ‘empate técnico’ entre a CDU/CSU (democratas-cristãos) da sra. Ângela Merkel e o SPD (sociais-democratas) do ex-chanceler Gerhard Schroeder.
Com este cenário, quem saiu beneficiado foram os partidos marginais, nomeadamente os liberais do FDP, de Guido Westerwelle, o Partido de Esquerda, de Gregor Gysi (ex-comunistas do Leste) e de Oskar Lafontaine (social-democrata radical).
Na Alemanha, como, prevejo, irá acontecer em quase toda a Europa, o sistema político bloqueou. Bloqueou porque o eleitorado deixou de ter verdadeiras alternativas no quadro político-partidário e as opções que tem pela frente são, no essencial, idênticas.
Os grandes partidos, que se situam ao centro do sistema, cristalizaram. Os modelos de governação são praticamente tirados a papel químico. As propostas não diferem na substância. É difícil saber quem é quem.
Ora, neste ‘caldo de cultura’ onde florescem as zonas cinzentas do politicamente correcto e se evitam os conceitos mais inovadores e criativos, prontos a fazerem rupturas e a provocarem o debate, já nem é possível deitar mão dos velhos conceitos de ‘Esquerda’ e ‘Direita’ para se fazerem as opções políticas. É neste cenário que se assiste ao crescimento do voto de protesto, que se traduz em fenómenos como o que, em Portugal, está a fazer crescer o Bloco de Esquerda. Os partidos do centro do sistema fixaram-se no dogma economicista do hiperliberalismo, que fez doutrina no pós-queda do Muro de Berlim.
Os defensores desta tese não discutem a eficácia de uma globalização que ‘ensanduichou’ a Europa entre os interesses americanos e os dos países do Extremo Oriente. Pelo contrário, optaram por acreditar na falácia que defende que só a destruição do Estado Social restituiria a competitividade.
Os tempos que correm mostram à saciedade como estão enganados e como nos enganaram. Não se promove a competitividade das empresas e se aumenta a qualidade de vida impondo aumento de impostos e cortes nos direitos sociais.
Para ultrapassar a actual crise económico-social, a receita que defendo e que serve tanto para Portugal como para a UE passa por não continuar a insistir em brandir o ataque ao défice como panaceia para todos os males.
A defesa do Estado Social e o aumento do nível de vida dos cidadãos passa por uma estratégia económico-social diferente e que se apresente como um modelo alternativo de governação.
O caminho deve ser o de apostar nas reformas de modernização do Estado, na Justiça, Administração Pública, Educação, Saúde. Em paralelo, é preciso consciencializarmo-nos de que o País não progride sem défice orçamental por mais meia dúzia de anos. O que é preciso é imaginação para financiar esse défice, o que passa pela venda de uma parte do ouro do Banco de Portugal – como já defendeu, aliás, o dr. Miguel Cadilhe. Não se pode sair da crise com uma sociedade crispada. Continuar pelo caminho que estamos a trilhar levará a mais desemprego e a mais insegurança.
Vogar na espuma das ondas, como está a acontecer um pouco por toda a Europa, e em Portugal, sem assumir nem rupturas, sem ir ao fundo dos problemas, só nos pode levar ao precipício.
A receita alternativa que aqui deixo em síntese é um pequeno contributo para ajudar a mobilizar o País para a mudança. Antes que seja tarde.
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Por Carlos Rodrigues
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